💾 Nova lei do ISS no Recife corta imposto para casas de apostas e gera polĂȘmica: “Incentivo ao vĂ­cio”

Uma alteração no CĂłdigo TributĂĄrio do Recife, sancionada em abril pelo prefeito JoĂŁo Campos (PSB), estĂĄ no centro de uma onda de crĂ­ticas nas redes sociais. A medida reduziu de 5% para 2% a alĂ­quota do Imposto Sobre Serviços (ISS) para empresas de apostas — incluindo as plataformas online, as chamadas bets.

A justificativa da prefeitura Ă© econĂŽmica: atrair sedes administrativas dessas empresas para o Recife e garantir uma fatia da arrecadação do setor, regulamentado nacionalmente em 2023. A projeção Ă© arrecadar mais de R$ 60 milhĂ”es por ano, valor que, segundo o municĂ­pio, serĂĄ destinado a ĂĄreas como saĂșde, educação e infraestrutura social.

Mas o corte no imposto causou forte reação de especialistas, vereadores e usuĂĄrios nas redes, que associam a medida a um suposto favorecimento do setor — especialmente diante dos crescentes impactos dos jogos de azar na saĂșde mental da população.

📉 A medida

A mudança, aprovada por 22 votos a 7 na CĂąmara Municipal, inclui as bets na faixa de empresas beneficiadas com a alĂ­quota reduzida de 2% — mesma concedida a negĂłcios do Porto Digital, por meio de um programa de incentivo criado em 2006. Antes da sanção, essas plataformas sequer pagavam ISS ao municĂ­pio, jĂĄ que nĂŁo estavam incluĂ­das no cĂłdigo.

Durante a tramitação, vereadores tentaram condicionar o benefĂ­cio a contrapartidas sociais — como exigĂȘncia de contratação de moradores do Recife e investimento em tratamento para dependentes em jogos. As emendas foram rejeitadas.

⚠ O que dizem os crĂ­ticos

A vereadora Liana Cirne (PT), uma das sete que votaram contra o projeto, classificou a medida como “um estímulo indireto ao vício”. Ela destaca que, no Brasil, os jogos já ocupam o terceiro lugar entre os principais vícios, atrás apenas de álcool e tabaco:

“Reduzir imposto para as bets Ă© o oposto do que deverĂ­amos fazer. Quando se quer reduzir o consumo de cigarro, aumenta-se o imposto. A lĂłgica deveria ser a mesma.”

A parlamentar tambĂ©m questiona o fato de setores como cultura, educação e saĂșde nĂŁo contarem com o mesmo incentivo fiscal, apesar de sua relevĂąncia social.

Nas redes sociais, internautas foram além, levantando suspeitas de possível relação entre a medida e o patrocínio de eventos promovidos pela própria prefeitura por casas de apostas.

🧼 A disputa por arrecadação

Para o economista Ecio Costa, da UFPE, a medida está alinhada com o que cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre já praticam. Segundo ele, sem o ajuste, Recife perderia competitividade na “guerra fiscal” entre municípios:

“As bets foram legalizadas e atuam nacionalmente. Se o Recife nĂŁo oferece condiçÔes atrativas, a arrecadação vai para outras cidades.”

Costa afirma ainda que os efeitos nocivos das bets nĂŁo dependem do local onde estĂŁo sediadas, jĂĄ que as apostas sĂŁo feitas pela internet. Para ele, o valor arrecadado pode — e deve — ser usado em açÔes de prevenção:

“Com R$ 60 milhĂ”es por ano, o municĂ­pio pode investir em educação financeira e açÔes de saĂșde mental. Cabe Ă  sociedade cobrar esse retorno.”

📊 O que diz a prefeitura

Em nota, a Prefeitura do Recife negou que tenha concedido “benefĂ­cio fiscal” ao setor, alegando que as bets passaram a ser tributadas pela primeira vez. A administração reforça que cidades como SĂŁo Paulo e Caruaru jĂĄ aplicam a mesma alĂ­quota.

AlĂ©m disso, informa que arrecadou cerca de R$ 6 milhĂ”es apenas no primeiro mĂȘs de vigĂȘncia da nova regra — recursos que, segundo o Executivo, serĂŁo investidos em ĂĄreas sociais como a construção de creches, unidades de saĂșde e pavimentação de ruas.

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