Bandas pedem até R$ 800 mil, cidades cancelam Carnaval e prefeitos falam em “absurdo”

O aumento no valor dos cachês cobrados por artistas virou uma dor de cabeça para prefeitos do Nordeste e já começa a impactar diretamente o Carnaval de 2026. Com a proximidade da festa, municípios de pequeno e médio porte relatam que os preços estão “fora da realidade” e, diante da pressão financeira, prefeituras passaram a cancelar ou reduzir os festejos.

Diante do cenário, gestores municipais articulam uma ação conjunta para tentar conter a escalada dos valores, que também já preocupa associações municipalistas com foco nos festejos juninos.

CIDADES JÁ CANCELARAM O CARNAVAL

No Ceará, pelo menos três municípios anunciaram o cancelamento do Carnaval: Tauá, Caucaia e Jaguaretama.

No Rio Grande do Norte, a Prefeitura de Paraú cancelou a festa e informou que vai destinar os recursos para ações de enfrentamento aos impactos da seca. A mesma justificativa foi adotada pela cidade de Santa Luzia, na Paraíba.

“BANDA QUERENDO R$ 500 MIL. ABSURDO”

O prefeito de Massapê (CE)Ozires Pontes (PSDB), anunciou no dia 1º de fevereiro que a cidade não terá quatro dias de festa. Em vez disso, fará apenas um dia de programação.

Segundo ele, os cachês estão inviabilizando os eventos.

“As bandas estão cada uma mais cara do que a outra; banda que nem é essas ‘tops das galáxias’ querendo R$ 500 mil. Absurdo”, afirmou nas redes sociais.

CACHÊS MAIS QUE DOBRARAM

De acordo com Joacy Alves Junior, presidente da Aprece (Associação dos Municípios do Ceará), há casos em que o valor do cachê subiu mais de 100% de um ano para o outro.

“Tem banda que era R$ 100 mil em 2025 e agora quer cobrar R$ 200 mil, R$ 300 mil. Tem banda cobrando até R$ 800 mil. Não há como pagar”, afirmou.

EMENDAS E RECURSOS FEDERAIS ENTRAM NO CENTRO DA CRÍTICA

O presidente da Aprece aponta que a alta também está relacionada ao aumento de festejos financiados com recursos federais, incluindo projetos aprovados nos ministérios do Turismo e da Cultura, além de uma modalidade que cresceu nos últimos anos: emendas parlamentares usadas para custear shows.

Outro ponto citado é o impacto da chamada emenda Pix, que permite que a prefeitura receba recursos de forma rápida e consiga contratar atrações sem planejamento longo, o que, na avaliação dos prefeitos, ajuda a inflacionar os preços.

“Com a criação da emenda Pix, uma prefeitura recebe o dinheiro no mesmo dia e pode fazer a festa. Isso aumenta o preço porque, se esse município não tivesse esse dinheiro, não teria como pagar e não faria a festa”, explicou Joacy Alves Junior.

PREFEITOS TEMEM 2026 COM “PÉ NO FREIO”

Além da explosão dos cachês, prefeitos apontam que 2026 deve ser um ano de contenção de gastos. Joacy Alves Junior citou ainda a queda de arrecadação provocada pela isenção do Imposto de Renda, que, segundo ele, impactou diretamente as receitas municipais.

BAHIA, PARAÍBA E OUTROS ESTADOS JÁ DISCUTEM LIMITES

O debate já se espalhou por outros estados.

Na Bahia, uma comissão de prefeitos se reuniu na quarta-feira (4) com o Ministério Público estadual para discutir critérios e limites para contratação de artistas no São João. O encontro resultou na construção de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta).

“É uma resposta ao clamor da opinião pública. A inflação subiu 4,6%, o piso do professor subiu 5,4%, então achamos razoável que se avaliem esses aumentos de cachês de forma desproporcional”, afirmou Wilson Cardoso (PSB), prefeito de Andaraí (BA).

Na Paraíba, reunião semelhante ocorreu na quinta-feira (5), com o Tribunal de Contas do Estado (TCE).

“O valores cobrados atualmente são incompatíveis com a realidade financeira da maioria dos municípios”, afirmou Márcio Leite, presidente da Associação dos Municípios do Cariri e Agreste da Paraíba.

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