VAZAMENTO SUSPEITO: PF Investiga Como Criminosos do PCC Escaparam da Maior Operação da História

Escritórios esvaziados, computadores sumidos e fuga de lancha levantam suspeitas sobre informações privilegiadas

A Polícia Federal abriu investigação para apurar um possível vazamento de informações sobre a Operação Carbono Oculto, que deveria ser o golpe mais certeiro contra o crime organizado brasileiro. Das 14 pessoas com mandados de prisão, apenas 6 foram capturadas – um índice de fuga que o próprio diretor-geral da PF classificou como “anormal”.

O Rastro da Traição

Os indícios de que a operação foi antecipadamente descoberta pelos criminosos se espalharam por todo o país. Em Bombinhas, Santa Catarina, um dos alvos principais foi encontrado tentando escapar em uma lancha ancorada na praia – evidência clara de que sabia da iminência da ação policial.

Mas foi em Curitiba que os investigadores encontraram a prova mais contundente. Um prédio de quatro andares, descrito pelos investigadores como verdadeiro “escritório do crime”, estava completamente esvaziado. O local, que servia como ponto de encontro estratégico para proprietários de postos de combustível envolvidos no esquema, teve a maioria dos computadores removida antes da chegada dos agentes.

Sinais de Alerta Ignorados

“Não é uma estatística normal das operações da Polícia Federal”, declarou o diretor-geral Andrei Rodrigues durante coletiva no Ministério da Justiça. “Com 14 mandados de prisão e apenas 6 cumpridos, definitivamente há algo que merece nossa atenção e investigação.”

Em outro endereço investigado, os agentes descobriram um compartimento secreto na parede repleto de malas de viagem vazias – mais uma evidência de que os criminosos se prepararam antecipadamente para fugir.

O Epicentro que Escapou

Entre os 8 fugitivos está Mohamad Hussein Mourad, conhecido pelos apelidos de “João”, “Primo” ou “Jumbo”, considerado pelos investigadores como o “epicentro das operações”. O empresário de 45 anos comandava um império bilionário que se estendia desde a importação irregular de combustível até sofisticados fundos de investimento na Faria Lima.

Mourad, que se apresentava como CEO da empresa G8LOG em seu perfil do LinkedIn, já havia enfrentado a Justiça anteriormente. Em 2010, foi preso em flagrante por tentativa de suborno a policiais civis, ocasião em que foram encontradas munições de metralhadora .50 em sua posse.

Redes Sociais

Mohamad Hussein Mourad

A Maior Operação da História Brasileira

O que deveria ser o “maior golpe contra o crime organizado brasileiro” – nas palavras do ministro da Justiça Ricardo Lewandowski – mobilizou 1.400 agentes em uma ação coordenada entre Polícia Federal, Receita Federal, Ministério Público de São Paulo e diversos outros órgãos.

A operação na verdade engloba três ações simultâneas: Quasar, Tank e Carbono Oculto, todas mirando na infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis e mercado financeiro.

Números impressionantes da operação:

  • 350 alvos entre pessoas físicas e empresas
  • R$ 52 bilhões movimentados pelo esquema
  • Mais de 1.000 postos de combustível irregulares
  • 40 fundos de investimento controlados pela organização
  • R$ 30 bilhões em patrimônio oculto
  • 65 alvos somente na Faria Lima

Como Tudo Começou: O Acaso que Revelou o Império

A descoberta do maior esquema de lavagem de dinheiro da história brasileira aconteceu por puro acaso. Em 14 de maio de 2023, agentes da Polícia Rodoviária Federal abordaram um caminhão-tanque em Guarulhos transportando metanolirregular.

O motorista Renan Diego Inocência da Silva carregava a substância química que deveria seguir para Mato Grosso, mas na realidade estava sendo desviada para adulterar combustível em postos da Grande São Paulo. Em alguns casos, o metanol representava até 50% da composição da gasolina vendida aos consumidores.

A Sofisticação do Crime Organizado

O que começou com um caminhão suspeito revelou uma rede criminosa de sofisticação impressionante:

Na base: Milhares de postos de gasolina espalhados por 10 estados serviam como pontos de lavagem de dinheiro, recebendo valores em espécie que eram “legitimados” através de vendas fictícias.

No meio: A BK Bank, fintech que funcionava como “banco paralelo”, movimentou R$ 46 bilhões entre 2022 e 2024, recebendo mais de 10.900 depósitos em espécie totalizando R$ 61 milhões.

No topo: 65 empresas localizadas na Faria Lima, incluindo fundos de investimento, corretoras e fintechs que transformavam dinheiro sujo em ativos “legítimos” do mercado financeiro.

Infiltração no Coração Financeiro

Avenida Faria Lima, considerada o coração do mercado financeiro brasileiro, abrigava dezenas de empresas controladas secretamente pela organização criminosa. Entre os alvos estão fundos de investimento sob gestão de grupos conhecidos como Reag, Altinvest, Trustee e Banvox.

ministro da Fazenda Fernando Haddad classificou a descoberta como chegada ao “andar de cima do sistema”, revelando como o crime organizado havia se infiltrado nos mais altos escalões do mercado financeiro nacional.

O Preço da Corrupção

Além dos bilhões sonegados aos cofres públicos, o esquema causou prejuízos diretos aos consumidores. O combustível adulterado com metanol, além de ter menor eficiência energética, danifica permanentemente os motores dos veículos.

A operação estima que mais de 10 milhões de litros de metanol foram desviados para adulteração, afetando milhões de motoristas brasileiros que, sem saber, abasteceram com combustível fraudado.

Investigação do Vazamento

Com o fracasso relativo na captura dos principais alvos, a PF agora enfrenta uma investigação paralela ainda mais delicada: descobrir quem, dentro do próprio sistema de segurança pública, pode ter alertado os criminosos.

“Essa hipótese será rigorosamente investigada”, garantiu Andrei Rodrigues. “Vamos apurar se houve vazamento e, em caso positivo, os responsáveis serão punidos com todo o rigor da lei.”

Próximos Passos

Apesar das fugas, a operação conseguiu bloquear mais de R$ 1 bilhão em bens dos investigados e desmantelar a estrutura financeira que sustentava o esquema.

Os 8 fugitivos estão com mandados de prisão em aberto e são considerados foragidos da Justiça. A expectativa é que, com a destruição de sua rede de apoio, sejam capturados nos próximos dias.

A Operação Carbono Oculto marca um divisor de águas na luta contra o crime organizado brasileiro, revelando não apenas a sofisticação das organizações criminosas modernas, mas também a necessidade de fortalecer os mecanismos de segurança das próprias instituições que combatem o crime.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *