Após 36 anos em trabalho escravo, mulher pede para voltar à casa dos antigos patrões no Recife

Vítima resgatada em 2025 relatou solidão e abandono após deixar residência onde viveu sem salário desde a adolescência; MPT investiga falhas no atendimento da prefeitura do Recife.

Uma mulher de 54 anos, resgatada após passar 36 anos em condições análogas à escravidão no Recife, procurou o Ministério Público do Trabalho (MPT) pedindo para voltar à casa dos antigos patrões. Segundo o órgão, ela afirmou estar se sentindo sozinha e sem acompanhamento adequado após o resgate realizado em novembro de 2025.

O caso reacendeu o debate sobre o suporte oferecido pelo poder público a vítimas de trabalho escravo doméstico e levou o MPT a abrir uma investigação para apurar possíveis falhas no atendimento socioassistencial prestado pela Prefeitura do Recife.

A trabalhadora foi encontrada em uma residência no bairro de Porto da Madeira, na Zona Norte da capital pernambucana. De acordo com as investigações, ela vivia desde 1989 na casa dos empregadores, onde teria sido submetida a jornadas exaustivas, forte controle da rotina, restrições de liberdade e ausência total de remuneração ao longo de mais de três décadas.

Na época do resgate, a vítima optou por ficar na casa de familiares e deveria ser acompanhada pela rede municipal de assistência social.

Segundo o MPT, no dia 28 de abril deste ano, a mulher procurou espontaneamente o órgão dizendo que desejava retornar à residência onde trabalhava. Ela foi orientada de que uma eventual recontratação só poderia ocorrer com todos os direitos trabalhistas garantidos, incluindo carteira assinada, jornada regular e condições dignas de moradia.

Após o relato, o Ministério Público informou que acionou imediatamente a Secretaria Executiva de Assistência Social do Recife para reforçar o acompanhamento da vítima.

O MPT afirma que voltou a solicitar atendimento nos dias 12 e 21 de maio, mas recebeu da prefeitura a informação de que a mulher não havia sido localizada. Mesmo após o envio do endereço da antiga empregadora para facilitar as diligências, a gestão municipal informou novamente não ter conseguido encontrar a trabalhadora.

Em nota, o Ministério Público do Trabalho afirmou que o caso revela “inegável falha no atendimento socioassistencial prestado à vítima”, destacando que pessoas resgatadas de trabalho escravo necessitam de acompanhamento contínuo devido ao elevado grau de vulnerabilidade social e emocional.

Diante da situação, a Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (Conaete) determinou a abertura de procedimento para investigar a atuação da prefeitura e avaliar possíveis melhorias nos fluxos de atendimento, acompanhamento e monitoramento de vítimas resgatadas.

A Prefeitura do Recife informou que atua dentro dos limites legais da política de assistência social e afirmou que ofereceu acolhimento institucional à vítima, mas que ela preferiu permanecer com familiares.

A gestão municipal disse ainda que equipes da assistência social realizaram visitas ao endereço informado e ao posto de saúde frequentado pela trabalhadora, mas ela não foi localizada. Segundo a prefeitura, também houve tentativa de atualização do Cadastro Único (CadÚnico), sem sucesso.

A Secretaria de Assistência Social ressaltou que não possui competência investigativa ou fiscalizatória, atribuição que cabe aos órgãos trabalhistas, criminais e administrativos responsáveis pela apuração do caso.

O episódio expõe a complexidade do processo de reintegração de vítimas de trabalho escravo doméstico, especialmente quando há dependência emocional, isolamento social prolongado e ausência de rede de apoio estruturada após o resgate.

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