Estado que mais gasta por aluno no Brasil amarga penúltimo lugar em qualidade da educação

Rio de Janeiro investe quase R$ 20 mil por estudante ao ano, mas ocupa a 26ª posição no Ideb; especialistas apontam falhas de gestão, desperdício de recursos e falta de prioridade política.

O Rio de Janeiro registra o maior gasto por aluno da educação pública brasileira, mas segue entre os piores estados do país quando o assunto é qualidade de ensino. Levantamento do Movimento EducAçãoRio, com base em dados do Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Educação (Siope) e do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), revela que o estado investe R$ 19.580 por estudante ao ano — o maior valor do Brasil.

Apesar disso, o Rio ocupa a penúltima colocação no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), principal indicador de qualidade da educação do país.

A discrepância chama atenção quando comparada a estados que apresentam desempenho superior. Goiás, líder nacional no Ideb, investe R$ 10.704 por aluno — valor 83% menor que o destinado pelo governo fluminense.

“O estado tem um papel fundamental na oferta da educação pública e no apoio aos municípios. O Rio possui o segundo maior PIB do país, mas, quando olhamos para os resultados da educação, a realidade é inversa”, afirma Carla Jucá, diretora-executiva do Movimento EducAçãoRio.

Segundo o levantamento, as despesas correntes da Secretaria Estadual de Educação cresceram mais de 110% nos últimos cinco anos. Para especialistas, porém, o aumento dos investimentos não se refletiu na melhoria da aprendizagem nem na valorização dos profissionais da rede.

“Esse investimento não chegou ao professor nem à sala de aula”, avalia Carla Jucá.

A situação é percebida nas escolas. Na Escola Estadual Visconde de Cairu, no Méier, a taxa de reprovação entre estudantes do primeiro ano do Ensino Médio chegou a 40% em 2025. Já no Colégio Estadual Jornalista Tim Lopes, no Complexo do Alemão, alunos relatam problemas de infraestrutura e acesso precário à internet, apesar da existência de equipamentos tecnológicos.

Professores da Baixada Fluminense e do Sul do estado também relatam desperdício de materiais. Há registros de livros didáticos distribuídos em quantidade superior à demanda e equipamentos de realidade virtual e impressão 3D que permanecem sem utilização.

Enquanto isso, a rede estadual enfrenta sucessivos episódios de desgaste. Recentemente, denúncias envolvendo suposto desvio de recursos de escolas e a existência de funcionários fantasmas ampliaram os questionamentos sobre a gestão dos recursos públicos destinados à educação.

Para Olavo Nogueira Filho, diretor-executivo do Todos Pela Educação, o problema não está na falta de dinheiro.

“O Rio já dispõe dos recursos necessários para transformar sua educação. Existem exemplos bem-sucedidos em diversos estados brasileiros que poderiam ser adaptados à realidade fluminense. A questão central é a decisão política”, afirma.

O contraste é evidente. Enquanto estados como Goiás, Paraná, Ceará e Piauí avançaram nos indicadores educacionais nos últimos anos, o Rio de Janeiro seguiu trajetória oposta. Em 2013, ocupava a quarta colocação nacional no ensino médio estadual. Hoje, aparece apenas à frente de um único estado no ranking do Ideb.

Especialistas defendem que a recuperação passa por medidas estruturais, como reforço da alfabetização, combate à evasão escolar, melhoria da gestão dos recursos e valorização dos profissionais da educação.

Para eles, o desafio do Rio não é investir mais, mas fazer o dinheiro chegar efetivamente à aprendizagem dos alunos.

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