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MPPE aponta lacunas e pede novas diligências em caso de artesã intoxicada por mercúrio

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Promotoria devolveu inquérito à Polícia Civil e solicitou perícia nos vídeos que mostram suspeita colocando substância na garrafa da vítima

O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) devolveu à Polícia Civil o inquérito sobre a artesã intoxicada por mercúrio Denny Cardoso, no Recife. A promotoria identificou “lacunas relevantes” na investigação e, por isso, pediu novas diligências antes de decidir sobre uma eventual denúncia.

Denny afirma que sofreu intoxicação durante meses enquanto trabalhava no projeto social Arte na Medicina. A iniciativa funciona em um anexo do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), no bairro de Santo Amaro, área central do Recife.

A principal suspeita é Maria Aparecida Rodrigues de Araújo, que frequentava as aulas ministradas pela artesã. Denny filmou a mulher colocando uma substância em sua garrafa de água em duas ocasiões.

A Polícia Civil concluiu o inquérito em julho e indiciou Maria Aparecida por tentativa de homicídio. Segundo a investigação, ciúmes envolvendo o então namorado da suspeita podem ter motivado o crime. A defesa, por sua vez, afirmou anteriormente que Maria Aparecida não se lembra dos fatos.

MPPE aponta falhas nas provas do inquérito

A promotora Rosângela Furtado Padela Alvarenga, da 28ª Promotoria de Justiça Criminal, decidiu devolver o inquérito em 31 de julho. A medida ocorreu dez dias depois de a Polícia Civil anunciar a conclusão da investigação.

Entre as principais pendências, a promotoria destacou a falta de perícia nos vídeos gravados pela própria vítima. Segundo o MPPE, a polícia não apreendeu formalmente o celular usado por Denny durante mais de um ano de investigação.

Os investigadores também não encaminharam os arquivos originais das gravações para perícia forense. Para o Ministério Público, essa falha pode abrir espaço para questionamentos sobre a cadeia de custódia digital e prejudicar o uso da prova. Diante disso, o MPPE solicitou que a Polícia Civil apreenda formalmente o aparelho usado pela artesã. Depois, os investigadores deverão encaminhá-lo ao Instituto de Criminalística (IC).

Os peritos deverão extrair os arquivos originais, verificar a autenticidade das gravações e transcrever o conteúdo. Ao mesmo tempo, a promotoria pediu que o Hospital Oswaldo Cruz forneça as imagens das câmeras de segurança da unidade.

O Ministério Público também apontou que não recebeu o depoimento de uma testemunha considerada essencial. O homem é ex-namorado da investigada, amigo de Denny e já havia prestado depoimento à Polícia Civil.

A promotoria deu prazo de 60 dias para a polícia cumprir as diligências. O MPPE também autorizou outras medidas que os investigadores considerem necessárias para esclarecer a dinâmica do caso.

Testemunha relatou ciúmes e confirmou entrega de garrafa

A TV Globo também teve acesso ao depoimento do ex-namorado da suspeita, que pediu para não ter a identidade divulgada. Ele afirmou conhecer Denny e Maria Aparecida havia cerca de dez anos e disse que percebeu ciúmes da investigada em relação à amizade que mantinha com a artesã.

O homem também contou que presenciou uma discussão entre as duas. Segundo o depoimento, Denny teria orientado Maria Aparecida a resolver diretamente com o namorado qualquer problema relacionado ao relacionamento.

A testemunha também confirmou que viu Maria Aparecida presentear Denny com uma garrafa verde. Posteriormente, o recipiente apareceu nas gravações feitas pela artesã. Além disso, o homem afirmou que reconheceu Maria Aparecida no vídeo. O depoimento pode ajudar os investigadores a esclarecer a possível motivação do caso.

Wilgberto Reis, advogado de Denny Cardoso, informou que indicou outras duas pessoas para prestar depoimento. Segundo ele, uma dessas testemunhas conhece a dinâmica dos acontecimentos e teria informações sobre a suposta motivação ligada a ciúmes.

Denny gravou suspeita após apresentar sintomas

A vítima diz sofrer com dores e dificuldade de locomoção por conta da presença do mercúrio no corpo (Reprodução/Rede Social)

Vítima relata dores e dificuldade para se locomover devido ao mercúrio no organismo – Foto: Reprodução/Rede social

Denny fez as gravações em junho de 2025, depois que começou a apresentar sintomas de intoxicação. Ela relatou dores abdominais e alterações neurológicas e, diante disso, decidiu esconder um celular para registrar o que acontecia com sua garrafa.

Em uma das gravações, Maria Aparecida aparece cortando um papel com uma tesoura e colocando uma substância na água. Em seguida, ela agita a garrafa e deixa o local. Denny entregou o recipiente para análise. Dois dias depois, segundo a artesã, ela voltou às aulas com outra garrafa idêntica e novamente filmou a suspeita colocando uma substância na água.

A artesã também afirmou que recebeu da própria aluna uma garrafa e passou a utilizá-la diariamente durante cerca de dois meses. Nesse período, percebeu bolhas na água e alteração no gosto, porém não desconfiou inicialmente de uma possível intoxicação. Depois das gravações, Denny procurou a polícia. Os laudos periciais encontraram mercúrio nas duas garrafas analisadas.

Os exames médicos também identificaram o metal no sangue e na urina da artesã. Segundo o material original, o exame de sangue apontou 21 mg, quantidade cerca de quatro vezes superior ao limite considerado tolerável.

Investigação apura período de exposição ao mercúrio

A investigação trabalha com a hipótese de que Denny sofreu exposição ao mercúrio durante um período de seis meses a um ano. No entanto, a apuração ainda continua e agora deverá incorporar as novas provas solicitadas pelo Ministério Público. O mercúrio é um metal altamente tóxico. A exposição pode provocar danos neurológicos e comprometer órgãos como rins, intestino e pele.

Denny afirmou que enfrentava dificuldades para encontrar profissionais especializados no atendimento de pessoas contaminadas pelo metal. Desde janeiro, ela aguardava uma consulta com um neurocirurgião pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

A Polícia Civil solicitou um laudo sobre possíveis sequelas neurológicas da artesã. Por isso, a consulta também se tornou necessária para dar continuidade ao tratamento. A defesa de Denny recorreu à Justiça para tentar garantir o atendimento. Posteriormente, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) marcou a consulta, um dia após a divulgação pública do caso.


Com informações do g1

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