FACHIN ACENDE “INCÊNDIO” NO STF AO FALAR EM CÓDIGO DE ÉTICA E VIROU ALVO DOS COLEGAS

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, comprou uma briga interna ao colocar em público a ideia de criar um código de conduta específico para ministros de tribunais superiores. O tema não é exatamente uma surpresa, mas o momento em que veio à tona irritou profundamente vários integrantes da Corte.
A proposta ganhou manchete justamente depois de vir à público a informação de que o ministro Dias Toffoli viajou em jatinho particular para Lima, no Peru, para assistir à final da Libertadores, ao lado do advogado Augusto de Arruda Botelho.
Toffoli é o relator do caso Banco Master no STF. Botelho, por sua vez, é advogado de um dos investigados no processo. A combinação de viagem privada, empresário, advogado e ministro ligado ao caso acendeu o alerta e alimentou críticas sobre conflito de interesses.
Nesse cenário já tenso, a discussão sobre um novo código de conduta soou, para muitos ministros, como se Fachin estivesse surfando na crise dos colegas — e não apenas defendendo uma pauta institucional.
JATINHO, BANCO MASTER E IMPEACHMENT: O CALDEIRÃO DO STF
O ambiente no Supremo já vinha pesado antes da fala de Fachin.
De um lado, o ministro Gilmar Mendes tomou uma decisão monocrática que mudou as regras para pedidos de impeachment de integrantes do STF, tirando poder político do Senado e concentrando mais filtro na Procuradoria-Geral da República (PGR).
A reação entre senadores foi imediata. Muitos viram a decisão como uma forma de blindagem dos ministros.
De outro lado, o caso Banco Master, relatado por Toffoli, ganhou ainda mais polêmica depois da revelação do voo para Lima com advogado de investigado. O episódio reforçou cobranças por transparência, limites éticos e regras clarassobre relações de ministros com empresários, advogados e interesses privados.
Em paralelo, o Supremo também enfrenta desgaste nas ruas e nas redes, especialmente por causa dos julgamentos da trama golpista de 8 de janeiro e da atuação de familiares de ministros na advocacia, tema que virou munição para críticas à independência da Corte.
É nesse contexto que explode a discussão sobre o código de conduta.
COLEGAS VEEM “TIMING ERRADO” E “PITO PÚBLICO”
Segundo relatos de bastidores, não foi a ideia em si que irritou ministros, mas a forma e o momento.
Fachin havia comentado o assunto com alguns colegas “em tese”, como um projeto de longo prazo. Mas, quando o tema apareceu publicamente em meio ao escândalo do jatinho de Toffoli e à crise do Banco Master, a interpretação interna foi outra:
pareceu que o presidente do STF estava mandando um recado público para dentro da própria Corte.
Um ministro ouvido pela coluna resumiu assim o incômodo:
“Bastaria estender o código do Conselho Nacional de Justiça para o STF. Não precisava disso agora. Quer falar de ética? Começa pela farra dos supersalários nos tribunais Brasil afora.”
Outro integrante classificou o gesto como “insensibilidade brutal”:
“No momento em que o STF enfrenta discussão sobre impeachment de ministros, trazer esse tema amplia o desgaste da Corte, em vez de ajudar a contê-lo.”
Há também quem avalie que Fachin, ao tentar se colocar como símbolo da ética e da transparência, acabou passando a impressão de estar apontando o dedo para os próprios colegas, justamente quando a Corte tenta se defender de ataques externos.
“A função do presidente é unir, coordenar, montar a pauta. Não criar mais um foco de atrito”, comentou um terceiro ministro.
Um quarto integrante foi ainda mais direto:
“Só serviu para azedar o clima. Estão tratando como se fosse algo já combinado com todos, mas não foi.”
PRIMEIRA CRISE INTERNA NA GESTÃO FACHIN
Desde que assumiu a presidência do STF, em setembro, Fachin vinha mantendo um perfil discreto, tentando organizar a pauta e reforçar a imagem institucional da Corte.
A discussão sobre o código de conduta, porém, marca a primeira grande desavença interna em sua gestão.
Na prática, o presidente do STF tentou se conectar à pressão da sociedade por mais transparência, controle de privilégios e limites éticos — especialmente diante de casos como:
- viagens em aviões particulares bancadas por empresários;
- decisões sigilosas em processos que interessam a grandes grupos econômicos;
- atuação de cônjuges e filhos advogados em cortes onde seus parentes são ministros;
- supersalários de magistrados, inflados por penduricalhos.
Mas, dentro da Corte, o movimento foi lido como um tiro de canhão no momento errado. Em vez de fortalecer o Supremo como instituição, teria exposto ainda mais as divisões internas e dado combustível para quem acusa o tribunal de agir de forma política.
O QUE ESTÁ EM JOGO
O embate em torno do código de conduta mostra um conflito de fundo:
- De um lado, a pressão crescente por regras claras sobre ética, lobby, remuneração e relações de ministros com o mundo político e econômico.
- De outro, o medo de que esse tipo de debate, se mal conduzido, fragilize ainda mais a imagem do STF em um momento de ataques constantes.
Fachin tenta se apresentar como o ministro que “puxa a fila” da integridade.
Parte dos colegas, porém, enxerga na movimentação dele mais exposição do que solução — e o presidente da Corte, que queria debater ética, acabou se tornando o novo alvo do fogo amigo dentro do Supremo.