Parentesco entre denunciante e conselheiro do TCE vira munição política para grupo de Raquel Lyra
Do Jornal O Globo

O voto do conselheiro Carlos Neves, vice-presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE), favorável à suspensão de contratos da gestão Raquel Lyra, se tornou alvo de contestação nos bastidores do governo estadual. Neves é primo de Pedro Queiroz Neves, autor das denúncias que embasaram a decisão da Corte — um detalhe que agora é explorado por aliados da governadora para levantar um possível pedido de suspeição do conselheiro.
O episódio acirra ainda mais os ânimos entre os grupos políticos de Raquel Lyra (PSDB) e João Campos (PSB), de olho nas eleições estaduais de 2026. O TCE virou peça central no embate entre os dois polos, com decisões recentes desfavoráveis a ambos. Campos enfrenta apuração sobre contratos da Prefeitura do Recife, enquanto a gestão Raquel está sob escrutínio por gastos da Secretaria de Comunicação, comandada por Rodolfo Costa Pinto — que também tem laços de parentesco com Carlos Neves.
Apesar da pressão política, o TCE informou que Carlos Neves não foi o relator do processo (a função coube ao conselheiro Eduardo Porto, responsável por suspender os pagamentos antes da votação na Primeira Câmara). Segundo o Tribunal, Neves “atuou regularmente como julgador, sem impedimento ou suspeição”.
Outro ponto que gerou incômodo no Palácio do Campo das Princesas foi o fato de Neves estar interinamente na presidência do TCE no dia em que a Primeira Câmara avaliou os contratos. Para integrantes do governo, a atuação do conselheiro reforça a percepção de conflito de interesse.
Em nota, o TCE-PE reiterou que a presidência interina “não teve qualquer relação com o julgamento em questão” e afirmou que a atuação do conselheiro foi estritamente técnica, dentro da legalidade e da autonomia funcional garantida aos membros da Corte.
Nos bastidores, o episódio aprofunda o clima de desconfiança entre os grupos políticos rivais, que acusam mutuamente o uso do Tribunal de Contas como instrumento de ataque institucional.