Propina era Codificada como “Beijos” e “Cheiros” em Esquema de Desvio de Verbas, Revela MPF

Operação da Polícia Federal investiga irregularidades em obra bancada com emendas do presidente da Câmara, Hugo Motta

Uma investigação da Polícia Federal (PF), do Ministério Público Federal (MPF) e da Controladoria-Geral da União (CGU) revelou um sofisticado esquema de desvio de verbas públicas na cidade de Patos (PB), onde propinas eram disfarçadas sob os codinomes “beijos” e “cheiros” em mensagens trocadas entre os envolvidos. A fraude envolvia o superfaturamento da restauração da Alça Sudeste e da Avenida Manoel Mota, obra orçada em R$ 5 milhões, financiada com emendas parlamentares do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos).

A operação, denominada Outside, teve sua segunda fase deflagrada nesta quinta-feira (3) e cumpriu quatro mandados de busca e apreensão autorizados pela 14ª Vara da Justiça Federal de Patos.

Apesar do envolvimento de recursos ligados a emendas do parlamentar, Hugo Motta não é investigado, pois o caso tramita na primeira instância, onde ele não possui foro privilegiado. O pai do deputado, Nabor Wanderley, que atualmente ocupa o cargo de prefeito da cidade, também não foi alvo da operação.

Propina por Pix e em Espécie

Os principais investigados nesta fase da operação são Eulanda Ferreira da Silva, servidora da Secretaria Municipal de Infraestrutura de Patos, e Dayane Days Candeia Cesarino, esposa de André Cesarino, dono da Engelplan, empresa apontada como beneficiária do esquema. Segundo o MPF, Eulanda usava seu cargo para favorecer os interesses privados da construtora, recebendo pagamentos ilícitos para liberar valores e destravar processos administrativos.

Interceptações telefônicas revelaram que os envolvidos utilizavam termos como “beijos” e “cheiros” para se referirem aos pagamentos indevidos. Em uma das mensagens, Eulanda pede seu “cheiro” a André Cesarino após a liberação de uma etapa do contrato. O empresário então solicita seu CPF e realiza uma transferência via Pix no valor de R$ 500.

As investigações também apontam que, por temer deixar rastros financeiros, Eulanda passou a receber os pagamentos em dinheiro vivo na loja Atacadão das Malhas, que também foi alvo de buscas da PF.

Diálogos Revelam Códigos para Propina

Na decisão da Justiça Federal, diálogos registrados entre os investigados ilustram o funcionamento do esquema:

📌 Agosto de 2022: Após liberar uma medição da obra, André Cesarino diz que passaria na prefeitura para dar um “cheiro” em Eulanda, referindo-se ao pagamento ilegal.

📌 Março de 2024: Eulanda envia um e-mail confirmando o desbloqueio de valores do contrato. André responde comemorando: “Hoje é dia de beijos e abraços, kkkk”.

📌 Dias depois: André pergunta se o pagamento foi realizado. Eulanda confirma: “Mandou os (emojis de beijos)”.

O MPF concluiu que Dayane Days era a responsável por efetuar os pagamentos de propina, tanto via transferências bancárias quanto em espécie, sempre na loja Atacadão das Malhas. A investigação suspeita que a empresa tenha sido usada para movimentar os valores ilícitos.

Defesas e Repercussão

O deputado Hugo Motta e o empresário André Cesarino não quiseram comentar o caso. A reportagem tentou contato com os demais citados, mas não obteve resposta.

O MPF segue apurando se outros agentes públicos estão envolvidos no esquema e se o prefeito Nabor Wanderley tinha conhecimento da fraude.

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