A esposa de Moraes explica o contrato de R$ 129 milhões com o Master — mas a versão enfraquece ainda mais o marido

Viviane Barci de Moraes divulgou nota detalhando os serviços prestados ao Banco Master: 36 pareceres, 94 reuniões e trabalho de compliance. Mas a narrativa levanta uma pergunta que não quer calar: se tudo era tão regular, por que o ministro do STF trocava mensagens com o banqueiro no dia em que ele era preso pela PF?

A esposa do ministro Alexandre de Moraes, a advogada Viviane Barci de Moraes, rompeu o silêncio nesta segunda-feira (9) e divulgou uma nota detalhada explicando o que seu escritório fez pelo Banco Master entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025 — período coberto por um contrato que previa remuneração de R$ 129 milhões ao longo de três anos.

Segundo ela, foram 94 reuniões de trabalho, 36 pareceres jurídicos e uma equipe de 15 advogados dedicada à implementação de mecanismos de compliance e à revisão do código de ética do banco. A nota é detalhada. O problema é o que ela não responde.

O que a nota diz — e o que ela omite

Viviane descreve um trabalho extenso: revisão de políticas internas, treinamentos, certificações de ética e governança, e até análise de inquéritos policiais — esses últimos “sigilosos”, segundo a própria nota, sem maiores detalhes. Ela também afirma que jamais atuou em nenhuma causa do Master perante o STF.

O que a nota não explica é a relação direta entre o contrato do escritório da família e o comportamento do próprio marido. Mensagens recuperadas do celular de Daniel Vorcaro, dono do banco, mostram que ele trocou pelo menos nove mensagens com quem seria o número de Moraes no dia 17 de novembro de 2025 — exatamente o dia em que foi preso pela PF. Numa delas, perguntou diretamente se o ministro tinha conseguido “bloquear” algo.

“Se o trabalho era regular, por que o banqueiro pedia ao ministro para ‘bloquear’ sua própria prisão?”

A versão de Moraes e o que o código da PF diz

O ministro Alexandre de Moraes nega ter recebido as mensagens e classificou as reportagens como “ilação mentirosa”. Sua tese de defesa era de que a organização das pastas do celular de Vorcaro indicaria os destinatários reais das mensagens — e que ele não seria um deles.

O problema é que essa tese já foi descartada pela análise do código-fonte do IPED, o programa da própria PF usado para organizar os arquivos do celular. Como mostrou o Estaão, o software distribui os arquivos em pastas com base num código matemático chamado hash — e não conforme o conteúdo ou destinatário das mensagens. A documentação que prova isso está pública no GitHub desde 2019.

A questão que fica no ar

No fundo, o que este caso coloca é uma pergunta simples que nenhuma nota oficial respondeu até agora: por que um banqueiro investigado pela PF, com prisão decretada, mandava mensagens para o ministro do STF pedindo “novidades” e perguntando se ele tinha conseguido “bloquear” algo? E por que o ministro respondia?

A nota de Viviane Barci de Moraes descreve um trabalho jurídico legítimo. Mas ao detalhar a proximidade entre seu escritório e o banco do empresário, ela ilumina — involuntariamente — exatamente o vínculo que o marido nega ter.

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