Brasil
Adiamentos travam depoimentos e atrasam conclusão de inquéritos do Banco Master
PF esperava encerrar ao menos uma frente da Operação Compliance Zero ainda em agosto, mas sucessivas remarcações comprimiram o cronograma
A Polícia Federal enfrenta uma sequência de adiamentos, cancelamentos e remarcações de depoimentos que vem atrasando a conclusão de inquéritos relacionados ao Banco Master. A expectativa inicial era finalizar ao menos uma das principais frentes da Operação Compliance Zero ainda em agosto, mas o cronograma acabou comprometido.
Nesta quinta-feira (15), Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, prestou novo depoimento à PF, assim como um diretor do Banco de Brasília (BRB). Mesmo assim, as oitivas não foram suficientes para eliminar o atraso acumulado ao longo dos últimos meses.
A investigação apura diferentes suspeitas envolvendo operações financeiras do Master, negociações com o BRB, atuação de ex-servidores do Banco Central e possíveis relações com agentes políticos. A primeira fase da Compliance Zero foi deflagrada em novembro de 2025.
Campos Neto e André Esteves ainda não foram ouvidos
Entre os depoimentos adiados estão os de André Esteves, controlador do BTG Pactual, e Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central.
Esteves deveria prestar depoimento como testemunha em 5 de outubro, mas a defesa pediu a mudança da data por compromissos profissionais. Até o momento, não há nova data definida.
Dois dias depois, em 7 de outubro, a oitiva de Campos Neto também foi cancelada a pedido de seus advogados. A Polícia Federal ainda não informou quando tentará ouvi-lo novamente.
Segundo a apuração, os investigadores querem esclarecer o que o ex-presidente do Banco Central sabia sobre a relação entre ex-servidores da instituição e Vorcaro, além de possíveis favorecimentos ao antigo Banco Master.
O atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino, já foram ouvidos nessa mesma linha de investigação.
Eleições entram no radar da investigação
As defesas têm apresentado justificativas processuais para os pedidos de adiamento, especialmente a necessidade de acesso integral aos autos antes dos depoimentos.
Segundo a reportagem da Gazeta do Povo, investigadores também avaliam que a proximidade do segundo turno eleitoral aumentou a sensibilidade do caso, que envolve personagens e instituições de diferentes centros de poder.
O segundo turno está marcado para 25 de outubro. Para os investigadores citados pela publicação, quanto mais as oitivas são empurradas, menor fica o tempo disponível para cruzar os depoimentos com documentos, mensagens, dados bancários e informações fiscais.
Vorcaro presta novo depoimento
Daniel Vorcaro foi ouvido presencialmente pela Polícia Federal nesta quinta-feira (15), na unidade conhecida como Papudinha, em Brasília, onde está preso.
A expectativa era que ele respondesse principalmente sobre a tentativa de venda do Banco Master ao BRB e sobre a negociação de carteiras de crédito investigadas por apresentarem possíveis irregularidades.
A defesa sustenta que Vorcaro tem interesse em prestar esclarecimentos e afirma que as operações financeiras foram legais. O ex-banqueiro também já negou acusações de corrupção, irregularidades e cooptação de servidores públicos.
Segundo a reportagem, o depoimento desta quinta-feira pode permitir que a PF conclua o relatório de pelo menos uma das várias frentes abertas no caso Master.
Quase 20 oitivas tiveram datas alteradas
A dificuldade para cumprir o calendário não começou agora.
Desde o início do ano, depoimentos de integrantes do BRB, sócios e ex-sócios do Master, familiares de Vorcaro e outros investigados vêm sendo suspensos ou adiados, geralmente sob a justificativa de acesso insuficiente aos autos.
A reportagem aponta que ao menos 20 oitivas tiveram suas datas afetadas desde o início das investigações. Não existe, porém, uma contagem oficial consolidada da Polícia Federal, porque os fatos foram divididos em diferentes inquéritos e uma mesma pessoa pode ser convocada mais de uma vez.
Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Vorcaro, por exemplo, teve o depoimento adiado três vezes. Já o senador Jaques Wagner (PT-BA) também teve uma oitiva adiada e ainda não possui nova data divulgada. Wagner é investigado em uma frente sobre sua relação com Augusto Lima e suspeitas de vantagens indevidas, que ele nega.
Prazo pedido pela PF termina em outubro
Em agosto, diante da quantidade de diligências ainda pendentes, a Polícia Federal pediu mais 60 dias para finalizar uma investigação sobre operações envolvendo o Master e o BRB.
Esse prazo chega ao fim agora em outubro, justamente em meio às oitivas ainda não realizadas.
A Compliance Zero começou investigando suspeitas relacionadas a carteiras de crédito negociadas com o BRB, mas posteriormente passou a abranger uma série de outros temas, como suspeitas de fraude financeira, atuação de servidores do Banco Central, relações políticas, movimentações internacionais, contratos e estruturas empresariais.
Além de ouvir investigados e testemunhas, a PF precisa confrontar os depoimentos com documentos, mensagens, movimentações bancárias, dados fiscais e material obtido em buscas e quebras de sigilo.
Por isso, segundo a apuração, cada novo adiamento pode atrasar outras etapas e empurrar parte das investigações para 2027.
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