RESGATADA DE TRABALHO ESCRAVO NO RECIFE PEDE PARA VOLTAR À CASA DOS PATRÕES APÓS ABANDONO DO PODER PÚBLICO

Uma história chocante de exploração, abandono e vulnerabilidade social voltou a ganhar repercussão em Pernambuco. Uma mulher de 54 anos, resgatada de uma situação análoga à escravidão doméstica no Recife, pediu para retornar à casa dos antigos patrões após afirmar que ficou sem assistência do poder público depois da operação de resgate. 

O caso aconteceu no bairro de Porto da Madeira, na Zona Norte da capital pernambucana, e é investigado pela Polícia Federal. Segundo relatório do Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM), a trabalhadora passou décadas submetida a jornadas exaustivas, sem salário, sofrendo humilhações, violência física e isolamento social. 


MULHER FOI RESGATADA APÓS MAIS DE 30 ANOS SEM SALÁRIO

A vítima, identificada no relatório pelo nome fictício de “Inês”, começou a trabalhar na residência aos 16 anos, em 1989.

Segundo os auditores-fiscais, ela realizava serviços domésticos diariamente sem receber salário há décadas. Os pagamentos teriam sido interrompidos ainda na época do Cruzeiro, antiga moeda brasileira. 

O relatório aponta que a mulher vivia em extrema vulnerabilidade social, era analfabeta e dependia completamente da família empregadora até para alimentação. 


RELATÓRIO APONTA VIOLÊNCIA, HUMILHAÇÕES E RESTRIÇÃO DE LIBERDADE

Durante a fiscalização realizada em novembro de 2025, o GEFM encontrou indícios de:

  • jornada exaustiva;
  • ausência total de direitos trabalhistas;
  • violência física e psicológica;
  • restrição de liberdade;
  • tratamento degradante;
  • exploração de trabalhadora hipervulnerável. 

Segundo o documento, a mulher trabalhava das 6h30 até perto da meia-noite.

Ela caminhava várias vezes ao dia até o comércio de Beberibe, num trajeto de aproximadamente 1,2 km, inclusive para comprar pão quente exigido pela empregadora. 

Os auditores identificaram muitos calos nos pés da trabalhadora, atribuídos à rotina intensa de deslocamentos. 


“ELA NÃO VOLTOU PORQUE QUIS”, DIZ COMERCIANTE

Após o resgate, Inês recebeu promessas de apoio psicológico, assistência médica, cesta básica e acompanhamento social.

Segundo relatório do Ministério Público do Trabalho, nada disso teria sido efetivamente mantido. 

Sem assistência contínua e afirmando sentir-se abandonada, a mulher voltou a procurar a casa dos antigos patrões em maio deste ano.

Uma comerciante ouvida pela fiscalização afirmou:

“SE ELA VOLTOU NÃO FOI PORQUE QUIS. FOI POR CONTA DE UM PRATO DE COMIDA.” 


AUDITORA DENUNCIA “ABANDONO INSTITUCIONAL”

O caso gerou forte reação dentro dos órgãos de fiscalização.

A auditora-fiscal Maria Neuzeli Arantes de Oliveira afirmou em relatório que a trabalhadora foi vítima não apenas da exploração doméstica, mas também de um “abandono social, institucional e afetivo” após o resgate. 

Segundo o documento, houve falha das redes estadual e municipal de assistência social na proteção da vítima. 

A auditora afirmou ainda que existia “risco concreto de retorno ao ciclo de exploração”. 


RELATOS DE AGRESSÕES E VIDA SEM DIGNIDADE

Dias após o resgate, a trabalhadora revelou episódios de agressão física.

Segundo o relatório, ela relatou:

  • tapa que cortou sua boca;
  • murro que deixou marca de anel no rosto;
  • agressões com ralador de coco de madeira. 

A fiscalização também apontou condições extremas de precariedade:

  • ela tinha apenas três dentes;
  • nunca teve atendimento médico regular;
  • não sabia ler;
  • nunca teve celular;
  • todas as roupas e pertences cabiam em apenas duas sacolas. 

PF INVESTIGA CRIME DE TRABALHO ESCRAVO

A Polícia Federal instaurou inquérito para investigar os empregadores pelo crime de redução à condição análoga à escravidão. 

Segundo o relatório, quatro pessoas da mesma família se beneficiavam do trabalho da mulher.

Após o resgate, os empregadores reconheceram o vínculo trabalhista e assinaram um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público do Trabalho. 

O acordo prevê:

  • reconhecimento do vínculo desde 1989;
  • recolhimento previdenciário;
  • indenização de R$ 120 mil;
  • contribuição previdenciária futura em nome da trabalhadora. 

PREFEITURA, ESTADO E MPT SE MANIFESTAM

A Prefeitura do Recife afirmou que ofereceu acolhimento e acompanhamento desde novembro de 2025, mas disse que a trabalhadora optou por voltar para a casa da família. 

O Governo de Pernambuco declarou que acionou a rede socioassistencial local após o resgate. 

Já o Ministério Público do Trabalho informou que voltou a acionar a assistência social após ser procurado pela vítima em abril deste ano. 

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