BOMBA NA PM DE SP: DEPOIMENTOS LIGAM EX-COMANDANTE A SUPOSTA OMISSÃO EM CASO DO PCC

Relatos citam vazamentos de operações, propina milionária e atuação de policiais para o crime organizado; defesa nega irregularidades

DEPOIMENTOS APROFUNDAM CRISE NA CÚPULA DA PM

A crise na Polícia Militar de São Paulo ganhou novos contornos após depoimentos que reforçam suspeitas de omissão e possível proteção por parte do ex-comandante-geral da corporação, coronel José Augusto Coutinho, em casos envolvendo policiais ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

As informações constam em investigações conduzidas pela Corregedoria da PM e pelo Ministério Público. O principal relato é do promotor Lincoln Gakiya, integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), que atua há mais de duas décadas no enfrentamento à facção.


VAZAMENTO DE OPERAÇÕES E FUGA DE LÍDER DO PCC

Segundo Gakiya, uma das principais suspeitas envolve o vazamento de informações sigilosas durante a Operação Sharks, realizada em 2020. O alvo central da ação, Marcos Roberto de Almeida, conhecido como “Tuta” e apontado como um dos principais líderes do PCC fora dos presídios à época, conseguiu escapar mesmo sendo monitorado.

Outros investigados também teriam evitado a prisão, levantando suspeitas de que detalhes da operação foram repassados previamente à facção.


GRAVAÇÃO VENDIDA POR R$ 5 MILHÕES

Outro ponto considerado grave é a denúncia de que uma reunião entre promotores e um delator do PCC, realizada dentro da sede da Rota, teria sido gravada e vendida ao crime organizado por cerca de R$ 5 milhões.

De acordo com o promotor, áudios entregues por testemunhas indicam que integrantes da facção tiveram acesso ao conteúdo da reunião, o que reforça a hipótese de participação de policiais no esquema de vazamento.


ALERTA AO COMANDO E SUPOSTA INAÇÃO

Gakiya afirmou que levou pessoalmente as denúncias ao então comandante da Rota, à época o próprio Coutinho, apresentando detalhes, provas e áudios. Apesar disso, segundo documentos do Ministério Público Militar, não há registros de medidas efetivas adotadas pelo oficial para investigar ou punir os envolvidos.

A ausência de providências pode configurar crime de prevaricação, quando um agente público deixa de agir diante de irregularidades.


“BICOS” ILEGAIS E LIGAÇÃO COM EMPRESA INVESTIGADA

As investigações também apontam que policiais militares estariam realizando “bicos” — atividades remuneradas fora da corporação — para empresas de ônibus investigadas por ligação com o PCC, como a Transwolff.

Um sargento preso afirmou à Corregedoria que o então comandante tinha conhecimento da prática e teria relativizado a situação. O policial também disse ter recebido apoio para permanecer na corporação mesmo atuando na segurança privada ilegal.


DELAÇÃO CITA PROTEÇÃO A INTEGRANTES DO PCC

Relatos de delação premiada indicam que policiais da Rota teriam atuado como seguranças de integrantes importantes da facção criminosa. Entre os nomes citados estão criminosos conhecidos como “Cara Preta”, “Django” e “Cebola”, além de um advogado ligado ao grupo.

Esses elementos reforçam a suspeita de um núcleo dentro da corporação que atuaria em benefício do crime organizado, incluindo vazamento de informações e prestação de serviços de segurança.


TROCA NO COMANDO E REESTRUTURAÇÃO

Em meio à crise, o coronel Coutinho deixou o comando da PM e pediu transferência para a reserva. A saída ocorre em um momento de pressão interna e avanço das investigações.

No lugar dele, assumiu a coronel Glauce Anselmo Cavalli, que se tornou a primeira mulher a comandar a Polícia Militar de São Paulo em quase 200 anos de história. A mudança marca uma reestruturação na cúpula da segurança pública estadual.


POSIÇÃO DA DEFESA E DO GOVERNO

A defesa de Coutinho afirma que não teve acesso ao conteúdo dos inquéritos e nega qualquer irregularidade. Segundo os advogados, a simples citação em investigações não configura culpa ou envolvimento direto.

O governo de São Paulo declarou que a saída do comandante ocorreu por motivos pessoais e que as mudanças na corporação seguem critérios técnicos.

Já a Polícia Militar informou que não comenta investigações em andamento, mas destacou que eventuais irregularidades são apuradas com rigor e dentro da legalidade.


INVESTIGAÇÃO SEGUE

O caso continua sob análise da Corregedoria da PM, do Ministério Público e da Justiça Militar. As apurações buscam esclarecer se houve omissão, conivência ou participação direta de agentes públicos em esquemas ligados ao crime organizado.

Se confirmadas as suspeitas, o episódio pode representar um dos mais graves abalos institucionais recentes na segurança pública paulista.

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