Após 11 anos parado, Pernambuco retoma monitoramento de tubarões com chips após novos ataques no Grande Recife

Projeto vai rastrear 60 tubarões no litoral pernambucano para identificar rotas, hábitos e períodos de maior risco; retomada ocorre após dois ataques em menos de 48 horas.

Após mais de uma década sem monitoramento contínuo de tubarões, Pernambuco voltará a rastrear os animais por meio de microchips instalados em seu corpo. A retomada do projeto ocorre em meio à preocupação provocada pelos recentes incidentes registrados no Grande Recife, onde uma criança de 11 anos e uma jovem de 19 anos foram gravemente feridas por tubarões em um intervalo inferior a 48 horas.

Pesquisadores do Departamento de Pesca da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) foram selecionados para executar o novo ciclo do projeto de monitoramento, que estava suspenso há 11 anos. A iniciativa prevê o rastreamento de 60 tubarões ao longo de dois anos, com investimento de R$ 1,052 milhão.

O objetivo é compreender melhor o comportamento das espécies que frequentam o litoral pernambucano, identificando rotas migratórias, períodos de maior aproximação da costa, horários de atividade e fatores ambientais que influenciam a presença dos animais próximos às praias.

A retomada acontece poucos dias após dois ataques que chocaram Pernambuco. No domingo (31), um menino de 11 anos foi mordido por um tubarão-cabeça-chata na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes. Já na segunda-feira (1º), uma jovem de 19 anos sofreu um ataque de tubarão-tigre na Praia de Boa Viagem, no Recife. Ambos permanecem internados no Hospital da Restauração.

Segundo o coordenador do Projeto Ecotuba, professor Paulo Oliveira, a ausência de monitoramento por mais de uma década criou uma lacuna importante no conhecimento científico sobre os tubarões que frequentam a região.

“Estamos há mais de dez anos sem um trabalho robusto de monitoramento e educação ambiental. Hoje não sabemos, por exemplo, se o tubarão-cabeça-chata está se aproximando mais da costa durante o inverno ou se os tubarões-tigre estão permanecendo mais tempo na região. Apenas o monitoramento poderá responder essas perguntas”, afirmou.

O estudo utilizará 15 receptores distribuídos em áreas consideradas críticas, especialmente nas praias de Boa Viagem e Piedade, locais que concentram o maior número de incidentes com tubarões no estado.

Além dos microchips, os animais capturados receberão marcas plásticas externas que facilitarão sua identificação pelos pesquisadores. A implantação dos transmissores será realizada por especialistas da UFRPE em procedimentos rápidos e pouco invasivos.

De acordo com a bióloga Maria Cecília Porto, responsável pelas marcações, cada procedimento dura cerca de cinco minutos entre a captura, instalação do equipamento e devolução do animal ao mar.

“Conseguimos acompanhar o deslocamento, os horários de maior atividade, a influência das marés, da temperatura da água e diversos fatores ambientais que ajudam a compreender melhor o comportamento dessas espécies”, explicou.

Os dados coletados servirão para orientar ações de prevenção, campanhas educativas e políticas públicas voltadas à segurança dos banhistas.

Desde 1992, Pernambuco contabiliza 84 incidentes envolvendo tubarões, segundo dados do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit). Somente em 2026, já foram registrados quatro casos de mordidas, incluindo a morte de um adolescente de 13 anos na Praia Del Chifre, em Olinda.

Especialistas acreditam que a retomada do monitoramento poderá fornecer informações fundamentais para reduzir riscos e aumentar a segurança nas praias do Grande Recife, uma das regiões com maior histórico de incidentes envolvendo tubarões no Brasil.

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