Operação resgata 22 mulheres em esquema de exploração sexual e trabalho escravo no Nordeste

Vítimas eram mantidas sob controle por dívidas, metas de programas sexuais e consumo de bebidas; investigação aponta atuação interestadual de organização criminosa em Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.
Mais de 20 mulheres foram resgatadas de condições análogas à escravidão durante uma operação que desarticulou um esquema interestadual de exploração sexual e tráfico humano no Nordeste. Ao todo, 22 vítimas foram libertadas em estabelecimentos localizados na Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte.
A ação integra a Operação Donos da Noite, deflagrada pela Polícia Federal com apoio da Auditoria-Fiscal do Trabalho. Os dados da investigação foram consolidados nesta segunda-feira (16).
Segundo as autoridades, quatro mulheres foram encontradas em Goiana, na Zona da Mata Norte de Pernambuco. As outras 18 vítimas estavam em municípios da Paraíba, onde se concentrava a maior parte das atividades da organização criminosa investigada.
Organização atuava em três estados
As fiscalizações ocorreram em seis estabelecimentos localizados nos municípios de Guarabira, Pedro Régis e Alagoa Grande, na Paraíba, além de Goiana, em Pernambuco, e Nova Cruz, no Rio Grande do Norte.
Mesmo fechado no momento da operação, o imóvel investigado em Nova Cruz continha cadernos de controle de dívidas, bagagens e outros indícios que reforçam a suspeita de exploração sistemática das trabalhadoras.
As investigações apontam que os locais eram administrados por uma mesma empresária e integrantes de sua família, formando uma rede articulada de exploração sexual com atuação em diferentes estados.
Dívidas, ameaças e metas abusivas
De acordo com os auditores fiscais, o controle das mulheres era mantido por meio de um rígido sistema de endividamento.
As vítimas acumulavam cobranças por alimentação, produtos de higiene pessoal, roupas, perfumes, procedimentos estéticos e até lavagem de roupas. Os valores eram definidos unilateralmente pelos responsáveis pelos estabelecimentos, sem qualquer transparência sobre os débitos ou ganhos reais das trabalhadoras.
Em diversos casos, as mulheres encerravam semanas inteiras de trabalho sem receber qualquer valor.
As investigações também revelaram a existência de metas consideradas abusivas. Segundo a Polícia Federal, as vítimas eram obrigadas a atingir o consumo de 40 doses de bebidas alcoólicas por semana e realizar até 20 programas sexuais por dia.
Quem não alcançava as metas sofria punições financeiras, que aumentavam ainda mais as dívidas e dificultavam a saída do esquema.
Vigilância constante e restrição de liberdade
Relatos colhidos durante a operação apontam que câmeras de monitoramento e pressão psicológica eram utilizadas para controlar a rotina das mulheres.
Algumas vítimas afirmaram que eram impedidas de deixar os estabelecimentos devido às dívidas acumuladas, situação que caracterizava restrição de liberdade.
As jornadas de trabalho chegavam a 14 horas diárias. Em dias úteis, as atividades se estendiam das 14h até as 4h da manhã. Nos fins de semana, começavam ao meio-dia e só terminavam após a saída do último cliente.
Relatos de abusos e condições degradantes
Durante a fiscalização, as autoridades registraram denúncias de estupros, abusos sexuais, consumo excessivo de álcool e outras substâncias, além de situações degradantes de alojamento.
As mulheres viviam em quartos coletivos com condições precárias de higiene e saneamento. Em alguns casos, o mesmo ambiente era utilizado simultaneamente como dormitório e local de exploração sexual.
A Auditoria-Fiscal do Trabalho determinou a interrupção imediata das atividades dos estabelecimentos investigados, além do pagamento dos direitos trabalhistas das vítimas e do custeio do retorno delas às cidades de origem.
Investigações continuam
A mulher apontada como líder da organização criminosa foi formalmente notificada pela caracterização de trabalho em condições análogas à escravidão.
Segundo a Polícia Federal e a Auditoria-Fiscal do Trabalho, as investigações continuam e novas vítimas podem ser identificadas nos próximos dias.
As autoridades também apuram possíveis crimes de tráfico de pessoas, exploração sexual, associação criminosa e redução de pessoas à condição análoga à escravidão.





