Brasil
Tarifaço chinês: carne pode ficar mais barata após China travar compras
Com a cota de exportação para a China praticamente esgotada, empresas dão férias coletivas, reduzem abates e buscam novos mercados. Parte da carne pode ir para o mercado interno e pressionar os preços para baixo.
A venda de carne bovina brasileira para a China começou a enfrentar um forte freio e já provoca reflexos nos frigoríficos do país. Com a cota de exportação para o mercado chinês praticamente preenchida, empresas passaram a reduzir abates, conceder férias coletivas e buscar destinos alternativos para a produção.
A China, principal compradora da carne bovina do Brasil, adota um limite de 1,1 milhão de toneladas com tarifa de 12%. Depois que esse volume é atingido, passa a valer uma sobretaxa de 55%, o que encarece o produto e praticamente inviabiliza novos negócios.
Diante desse cenário, frigoríficos já começaram a ajustar a produção. A JBS concedeu férias coletivas de 20 dias em duas unidades no Mato Grosso, a partir de 1º de julho. Já a FriGol adotou 15 dias de férias em uma unidade no Pará, onde cerca de 70% da produção era destinada ao mercado chinês.
A avaliação de analistas é que parte da carne que iria para a China pode acabar sendo direcionada ao mercado interno. Isso tende a aumentar a oferta do produto no Brasil e pode contribuir para uma queda nos preços ao consumidor nos próximos meses.
O movimento acontece em um momento em que os alimentos já tiveram impacto positivo na inflação. Em junho, o IPCA subiu 0,16%, abaixo das previsões do mercado, influenciado pela queda dos alimentos, incluindo as carnes, que recuaram 0,64%.
Especialistas avaliam que o efeito desse redirecionamento pode ser sentido pelo consumidor entre julho e agosto. Apesar disso, o cenário ainda é considerado incerto, principalmente por causa de fatores climáticos e da instabilidade no comércio internacional.
Além da China, outro ponto de preocupação para o setor é a União Europeia. O bloco pode excluir o Brasil da lista de países autorizados a exportar carnes e outros produtos de origem animal a partir de setembro. Nesse caso, o impasse envolve exigências regulatórias, rastreabilidade, documentação e regras sobre o uso de antimicrobianos na produção animal.
No caso chinês, o problema é mais comercial. A cota foi criada como uma forma de proteção aos pecuaristas da própria China, diante do avanço das importações. Segundo especialistas, isso não significa que Pequim esteja fechando o mercado ao Brasil, mas sim controlando o ritmo de entrada da carne estrangeira.
A China segue sendo o maior destino da carne bovina brasileira. Em 2025, o país asiático importou 1,68 milhão de toneladas, o equivalente a 48% de tudo o que os frigoríficos brasileiros venderam ao exterior.
Com a nova barreira tarifária, parte das exportações para a China deve ser retomada apenas em novembro, já dentro da cota de 2027, considerando o tempo de transporte da mercadoria até o país asiático.
Enquanto isso, os frigoríficos tentam redirecionar vendas para outros mercados, como Estados Unidos, Chile, México, Oriente Médio, Sudeste Asiático, Hong Kong, Rússia e Filipinas. O desafio é que nenhum desses destinos tem capacidade de substituir a China em volume no curto prazo.
Empresas com maior presença internacional e plantas habilitadas em diferentes países tendem a enfrentar melhor a situação. Já frigoríficos mais dependentes do mercado chinês podem precisar reduzir turnos, antecipar férias ou ajustar a compra de gado.
O Ministério da Agricultura também tenta evitar novas restrições da União Europeia. A pasta alterou controles ligados à exportação de carnes e derivados para atender exigências europeias sobre o uso de antimicrobianos, rastreabilidade e fiscalização.
Apesar das dificuldades, representantes do setor afirmam que a carne brasileira continua competitiva em preço e volume. O mercado, porém, acompanha com atenção os próximos passos da China e da União Europeia, já que qualquer restrição pode mexer com a produção, as exportações e o preço da carne no prato do brasileiro.
O GLOBO
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