Política
Motorista de Daniel Vorcaro registrou visitas a quatro deputados na Câmara
Registros mostram que Sidney Santos informou os gabinetes de quatro parlamentares como destino em fevereiro de 2024; todos negam encontros com o motorista
Sidney Santos, motorista que trabalhava para o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, registrou quatro visitas à Câmara dos Deputados em fevereiro de 2024. Conhecido como “Kiko”, ele informou na portaria que iria aos gabinetes de quatro parlamentares.
Os registros foram obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação. No entanto, os deputados Geraldo Mendes, Benes Leocádio, Pedro Westphalen e Sanderson negaram conhecer, receber ou manter qualquer contato com o motorista.
Sidney também aparece em informações relacionadas ao transporte de minutas de projetos de interesse da família Vorcaro. Segundo uma decisão do Supremo Tribunal Federal, ele teria levado documentos entre a residência do senador Ciro Nogueira e um escritório indicado por Daniel Vorcaro.
Motorista de Vorcaro indicou quatro gabinetes como destino

Sidney Santos, conhecido como “Kiko”, trabalhou como motorista de Daniel Vorcaro e aparece em registros de acesso à Câmara dos Deputados em fevereiro de 2024 | Créditos: Reprodução.
A primeira entrada ocorreu em 7 de fevereiro de 2024, às 16h33. Na portaria, Sidney informou que seguiria para o gabinete do deputado Geraldo Mendes, do União Brasil do Paraná, conhecido como “Homem do Chapéu”.
No dia seguinte, às 9h, o motorista indicou como destino o gabinete de Benes Leocádio, do União Brasil do Rio Grande do Norte. O parlamentar afirmou que não estava em Brasília naquela data e apresentou um comprovante de viagem.
Além disso, Sidney registrou uma entrada com destino ao gabinete de Pedro Westphalen, do PP do Rio Grande do Sul, em 15 de fevereiro, às 10h43. Cinco dias depois, às 10h45, ele informou que iria ao gabinete de Sanderson, do PL do Rio Grande do Sul.
Os registros mostram apenas o destino declarado pelo visitante no momento da entrada no prédio. Portanto, os documentos não comprovam que o motorista chegou aos gabinetes, conversou com os parlamentares ou participou de reuniões.
Sidney Santos transportou minutas para Ciro Nogueira
O nome de Sidney Santos surgiu indiretamente em uma decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. O documento autorizou buscas em endereços ligados ao senador Ciro Nogueira, do PP do Piauí, e descreveu a circulação de minutas de projetos de lei.
De acordo com a decisão, Daniel Vorcaro enviou um motorista à casa do senador em novembro de 2023. O objetivo seria buscar rascunhos de propostas legislativas e levá-los a um escritório indicado pelo ex-banqueiro. Após a revisão, o motorista teria devolvido os documentos a Ciro Nogueira. Sidney seria o responsável pelo transporte dos papéis, mas não aparece como investigado no caso.
Projetos envolviam mercado de créditos de carbono
As minutas tratavam da regulamentação do comércio de créditos de carbono. O assunto despertava interesse direto de Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro. Segundo a decisão de André Mendonça, investigadores encontraram orientações para evitar que o transporte dos documentos fosse relacionado ao senador ou ao Banco Master. Daniel Vorcaro teria pedido que o motorista não identificasse a ligação dos papéis com Ciro Nogueira.
Além disso, o ex-banqueiro teria orientado que o envelope não apresentasse qualquer referência ao Banco Master. Para os investigadores, esses cuidados indicariam uma tentativa de impedir a identificação da origem e do destino dos documentos.
A apuração busca esclarecer como as minutas foram produzidas, revisadas e devolvidas ao senador. Também pretende identificar se a movimentação ultrapassou os procedimentos comuns nas relações entre empresários e representantes políticos.
Deputados negam encontros com motorista de Vorcaro
O deputado Sanderson afirmou que não conhece Sidney Santos e nunca conversou com ele. Segundo o parlamentar, sua agenda oficial registra todas as pessoas recebidas no gabinete na data mencionada.
Sanderson também repudiou qualquer tentativa de relacionar seu mandato ao motorista. O deputado declarou que recebe milhares de pessoas ao longo do ano, tanto em Brasília quanto em compromissos políticos realizados fora da Câmara.
Pedro Westphalen informou que o gabinete não encontrou qualquer registro da visita. Conforme o deputado, uma pessoa pode entrar no prédio e indicar um gabinete como destino sem precisar de autorização prévia.
Westphalen explicou ainda que a portaria não verifica se o visitante realmente chegou ao local informado. Apesar disso, sua equipe continuaria procurando informações para saber se Sidney teve algum acesso ao gabinete.
Benes Leocádio também negou contato, reunião ou conhecimento sobre o motorista. Além disso, afirmou que estava fora de Brasília na data registrada e apresentou documentos para comprovar a viagem. O parlamentar ressaltou que a indicação feita na portaria não comprova uma visita efetiva. Segundo ele, não existe registro de entrada ou atendimento de Sidney em seu gabinete.
Geraldo Mendes pede imagens das câmeras
Geraldo Mendes declarou que o nome de seu gabinete foi informado indevidamente na portaria da Câmara. Por isso, anunciou que solicitaria imagens das câmeras internas para esclarecer o episódio.
O deputado destacou que sua atuação no mercado de créditos de carbono ocorre de forma pública e institucional. Ele é autor do Projeto de Lei nº 5.157 de 2023, que trata de créditos de carbono destinados à agricultura familiar.
Além disso, Mendes ocupou a segunda vice-presidência da Comissão de Minas e Energia da Câmara entre 2023 e 2024. Segundo o parlamentar, essas funções justificam seu interesse legislativo pelo tema, mas não indicam qualquer relação com Daniel Vorcaro ou com o motorista.
Geraldo Mendes também afirmou que apoiou a criação da CPI do Banco Master. Por fim, declarou que pretende levar o caso ao Poder Judiciário para contestar qualquer associação entre seu nome e os fatos investigados.
Motorista não explicou motivos das visitas
Sidney Santos foi procurado para explicar os registros de entrada na Câmara dos Deputados. Contudo, ele afirmou que queria distância das pessoas mencionadas e encerrou a conversa sem responder às perguntas.
O motorista não informou por que indicou os quatro gabinetes como destino. Da mesma forma, não esclareceu se conversou com servidores, assessores ou parlamentares durante as entradas registradas.
Agora, os investigadores podem comparar os registros da portaria com imagens internas, agendas oficiais e informações dos gabinetes. Até o momento, não há indicação de que os quatro deputados sejam investigados apenas porque seus nomes apareceram como destinos informados pelo motorista.
Com informações do Metrópoles
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