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Crise bancária derruba Santiago Peña: presidente renuncia, mas Câmara aprova impeachment no Paraguai
Colapso do Ueno Bank congelou contas de milhões de clientes, atingiu recursos públicos e provocou ruptura política; vice Pedro Alliana deve assumir o governo
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou ao cargo nesta quinta-feira (5), em meio à grave crise política e financeira provocada pelo colapso do Ueno Bank. A saída, porém, não encerrou o processo contra ele: minutos depois, a Câmara dos Deputados aprovou por 78 votos a 0 a acusação de impeachment e encaminhou o caso ao Senado.
A crise começou após o Banco Central do Paraguai colocar o Ueno Bank em processo de resolução por problemas de solvência. A instituição atendia quase 3 milhões de clientes e concentrava centenas de milhões de dólares em depósitos públicos, incluindo recursos previdenciários e de saúde.
Peña, que governava desde 2023 e tinha mandato até 2028, havia sido acionista do grupo controlador do banco até março de 2025. A oposição passou a acusá-lo de conflito de interesses, favorecimento regulatório e omissão diante das irregularidades identificadas na instituição. Essas acusações ainda dependem de apuração e julgamento.
Peña renuncia em meio ao avanço do impeachment
Peña anunciou a renúncia em um vídeo divulgado durante a sessão extraordinária do Congresso.
No pronunciamento, afirmou que tomou a decisão pensando na estabilidade do país, na paz social e na preservação das instituições democráticas. Também pediu desculpas à população e destacou como prioridade a devolução dos recursos aos clientes afetados pelo colapso bancário.
A renúncia ocorreu justamente enquanto deputados discutiam a abertura do processo de impeachment.
Mesmo após o anúncio, a Câmara decidiu seguir com a acusação.
Câmara aprova impeachment por 78 votos a 0
A Câmara dos Deputados confirmou oficialmente a aprovação do pedido de julgamento político contra Peña por 78 votos favoráveis.
O processo foi apresentado inicialmente por 35 parlamentares e acusa o então presidente, entre outros pontos, de conflito de interesses relacionado à sua antiga participação no grupo proprietário do Ueno Bank.
Os deputados também questionam a nomeação de Carlos Carvallo, ex-presidente da Financiera Ueno, para comandar o Banco Central do Paraguai e a concentração de recursos do Instituto de Previdência Social na instituição financeira.
Essas são acusações formuladas no processo político e não representam, por si só, comprovação de responsabilidade criminal.
Senado terá palavra final sobre impeachment
Pela Constituição paraguaia, cabe à Câmara formular a acusação por maioria qualificada. Em seguida, o Senado atua como tribunal político.
Para que Peña seja considerado culpado no processo, são necessários dois terços dos votos dos senadores.
O julgamento ganhou importância porque a Constituição prevê que ex-presidentes eleitos democraticamente se tornam senadores vitalícios, com direito a voz, mas sem voto.
A exceção ocorre quando o ex-presidente passa por impeachment e é considerado culpado. Nesse cenário, ele perde essa prerrogativa.
Vice Pedro Alliana deve assumir Presidência
O vice-presidente Pedro Alliana, de 52 anos, tornou-se o nome natural para assumir o comando do país.
Ele também havia sido incluído em um pedido de impeachment, mas a Câmara rejeitou a acusação por 48 votos a 30 e arquivou o processo por falta da maioria constitucional necessária.
Com a saída de Peña e a rejeição do processo contra Alliana, o vice fica livre para assumir o Executivo e completar o mandato até agosto de 2028.
Alliana também integra o Partido Colorado e construiu sua trajetória política como governador, deputado e dirigente partidário.
Ueno Bank atendia quase 3 milhões de clientes
O centro da crise é o colapso do Ueno Bank, que cresceu rapidamente nos últimos anos até se tornar uma das principais instituições financeiras do Paraguai.
O banco afirmava atender mais de 60% da população adulta do país e mantinha cerca de US$ 800 milhões a US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo depósitos previdenciários e de saúde.
A intervenção bloqueou temporariamente o acesso de milhões de clientes a contas, transferências e cartões, provocando longas filas e protestos em Assunção.
Empréstimos a empresas ligadas aos donos acenderam alerta
A crise começou a ganhar dimensão depois que inspeções do Banco Central identificaram operações de crédito com empresas vinculadas ao grupo controlador da instituição.
Segundo relatório da agência FIX, essas operações não haviam sido comunicadas adequadamente ao regulador e foram acompanhadas de fragilidades na qualidade dos ativos e na documentação de transações.
Depois dos ajustes contábeis exigidos pelo regulador, o índice de solvência do banco caiu para menos da metade do mínimo exigido.
O resultado levou o Banco Central a iniciar formalmente o procedimento de resolução da instituição.
Falta de capital e liquidez agravou crise
Além da insuficiência patrimonial, o Ueno enfrentava problemas de liquidez, ou seja, dificuldade de manter recursos suficientes para honrar saques, transferências e outras obrigações.
A combinação entre capital insuficiente, empréstimos considerados arriscados e dificuldade para cumprir compromissos acelerou a intervenção.
O Banco Central afirma que o problema é específico do Ueno e não representa uma crise sistêmica do sistema financeiro paraguaio.
Recursos da Previdência também estavam no banco
Parte expressiva dos recursos administrados pelo Ueno vinha de instituições públicas.
Entre os depósitos estavam fundos ligados ao Instituto de Previdência Social, responsável por aposentadorias e serviços de saúde.
Esse ponto passou a integrar diretamente as acusações políticas contra Peña, já que parlamentares afirmam que houve concentração excessiva de recursos públicos na instituição.
A responsabilidade por essas decisões ainda está sendo investigada.
Executivos foram presos e 27 pessoas foram acusadas
A crise também avançou para a esfera criminal.
Promotores paraguaios acusaram formalmente 27 pessoas ligadas ao banco, enquanto executivos da instituição foram detidos e tiveram bens bloqueados.
As investigações buscam esclarecer a concessão de empréstimos, operações com empresas relacionadas aos controladores e possíveis irregularidades na administração financeira.
Clientes começam a receber depósitos
O Fundo de Garantia de Depósitos começou a organizar a devolução de recursos aos clientes elegíveis.
Segundo autoridades paraguaias, a cobertura integral alcança depósitos de até 75 salários mínimos mensais por cliente, enquanto os primeiros pagamentos começaram por grupos com saldos menores.
A expectativa é de que a grande maioria dos clientes esteja dentro do limite protegido pelo sistema de garantia.
Crise já derrubou presidente do Banco Central
Antes da renúncia de Peña, a crise já havia provocado a saída do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo.
A queda de integrantes da cúpula econômica e política ampliou a desconfiança no governo e acelerou o isolamento do presidente dentro do próprio Partido Colorado.
A perda de apoio interno foi decisiva para que o processo de impeachment avançasse.
Paraguai entra em nova fase política
Com a renúncia de Santiago Peña, o avanço do impeachment e a provável posse de Pedro Alliana, o Paraguai entra agora em uma fase de transição política.
O novo governo terá como principal desafio restaurar a confiança no sistema bancário, garantir a devolução dos depósitos e administrar as consequências econômicas e políticas do colapso do Ueno Bank.
Ao mesmo tempo, o Senado terá de decidir o futuro do processo contra Peña, enquanto as investigações criminais e financeiras continuam.
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