Inflação dispara e já passa de 5%: guerra, El Niño e gastos do governo pressionam preços e acendem alerta no Brasil

Combustíveis, alimentos e serviços puxam alta do custo de vida; mercado já cogita interrupção dos cortes da Selic diante da escalada inflacionária.
A inflação brasileira enfrenta uma combinação de fatores que economistas classificam como uma “tempestade quase perfeita”. A guerra no Oriente Médio, a ameaça de um super El Niño, o mercado de trabalho aquecido e os estímulos fiscais adotados pelo governo estão pressionando os preços e elevando as projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial da inflação no país.
Em apenas três meses, as expectativas do mercado para a inflação de 2026 deram um salto significativo. Antes da escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã, a previsão era de que o IPCA encerrasse o ano em 3,91%, dentro do limite estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional. Agora, segundo o Boletim Focus do Banco Central, a projeção já alcança 5,09%, ultrapassando o teto da meta oficial.
O principal gatilho para a deterioração das expectativas foi a disparada internacional dos preços do petróleo. O conflito no Oriente Médio elevou os custos dos combustíveis, que acabam impactando toda a cadeia produtiva, desde o transporte de mercadorias até a produção agrícola.
Além disso, especialistas alertam para os possíveis efeitos de um super El Niño nos próximos meses. O fenômeno climático pode provocar secas e chuvas intensas em diversas regiões produtoras, afetando safras agrícolas e pressionando ainda mais os preços dos alimentos.
“Estamos diante de um choque de oferta internacional, combinado com uma demanda doméstica aquecida e um evento climático relevante no horizonte. É uma combinação extremamente desafiadora para o controle da inflação”, avalia a economista Marcela Kawauti, chefe da Lifetime Gestora de Recursos.

ALIMENTOS VOLTAM A PREOCUPAR
Os alimentos aparecem entre os principais vilões da inflação.
A consultoria 4intelligence revisou sua projeção para os preços da alimentação dentro de casa. Antes da guerra, a expectativa era de alta de 3,7% em 2026. Agora, a estimativa saltou para 7,7%.
Segundo os economistas, o aumento do petróleo afeta diretamente o custo dos fertilizantes, do diesel utilizado no campo e do transporte dos produtos agrícolas, elevando os preços ao consumidor.
Caso o El Niño se confirme com intensidade elevada, a pressão poderá ser ainda maior no fim deste ano e ao longo de 2027.
SERVIÇOS TAMBÉM SOBEM
Outro fator que preocupa o mercado é a inflação de serviços.
Com desemprego em níveis historicamente baixos e aumento da renda, empresas encontram mais espaço para repassar custos aos consumidores.
Dados recentes mostram que os serviços acumulam alta superior a 6% em 12 meses, movimento que reforça a percepção de que a inflação está se espalhando por diferentes setores da economia.
Economistas também apontam que medidas de estímulo adotadas pelo governo, como ampliação de crédito, reajustes de benefícios e aumento das transferências de renda, ajudam a manter o consumo elevado e pressionam os preços.
SELIC PODE PARAR DE CAIR
A piora das expectativas inflacionárias já provoca reflexos no mercado financeiro.
Analistas passaram a considerar a possibilidade de o Banco Central interromper o ciclo de redução da taxa Selic, atualmente em 14,5% ao ano, para evitar que a inflação se afaste ainda mais da meta.
Antes do agravamento do cenário internacional, a expectativa era que os juros terminassem o ano próximos de 12%. Agora, o mercado já projeta uma Selic de 13,25% ao final de 2026.
HÁ RISCO DE DESCONTROLE?
Apesar da forte pressão inflacionária, especialistas afirmam que o cenário ainda está longe de uma situação de descontrole.
O principal fator de contenção continua sendo a política monetária restritiva do Banco Central, que mantém os juros em patamares elevados para frear a demanda e impedir uma aceleração ainda maior dos preços.
Mesmo assim, a combinação entre guerra, clima adverso e aumento dos gastos públicos coloca a inflação no centro das preocupações econômicas para os próximos meses, com impacto direto no bolso dos brasileiros.





