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UOL aponta rede de bolsistas políticos em convênio de R$ 35 milhões da PortosRio

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Estatal do governo Lula abriga ‘exército’ eleitoral em contrato de R$ 35 mi

DO UOL

Um convênio de R$ 35 milhões firmado entre a estatal federal PortosRio e a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ, passou a ser alvo de questionamentos após reportagem apontar que parte dos bolsistas pagos pelo acordo tinha ligações com a classe política no Rio de Janeiro.

Segundo levantamento do UOL, uma folha de pagamentos sigilosa, no valor de R$ 8,9 milhões, mostra que centenas de pessoas incluídas como bolsistas tinham vínculos com campanhas eleitorais, partidos, políticos, ex-funcionários públicos, parentes de aliados e pessoas próximas a grupos políticos.

A PortosRio é a antiga Companhia Docas do Rio de Janeiro e administra os portos do Rio, Itaguaí, Niterói, Angra dos Reis e Forno.

Pagamentos a bolsistas

De acordo com a reportagem, foram analisados 544 nomes de bolsistas que receberam R$ 5,6 milhões da primeira parcela do convênio, entre janeiro e março deste ano.

Desse total, 305 pessoas teriam ligações com a classe política. Esse grupo recebeu R$ 3,3 milhões, segundo o levantamento.

Entre os beneficiários citados aparecem candidatos das últimas eleições, cabos eleitorais, dirigentes partidários, ex-servidores da Prefeitura de Belford Roxo, advogados, parentes de políticos e aliados.

A reportagem cita ainda o caso de Maxslei de Oliveira Silva, conhecido como Max do Corte, barbeiro e suplente de vereador em Mendes, no interior do Rio, que aparece como bolsista em um convênio voltado a estudos científicos e cursos online.

Convênio sem licitação

O acordo entre PortosRio e UFRJ foi fechado sem licitação. Pelo contrato, os recursos deveriam ser usados exclusivamente no desenvolvimento de estudos científicos em áreas como logística, engenharia, regulação portuária, conformidade ambiental e ações de integração entre portos e comunidades do entorno.

A UFRJ informou que há dois grupos de bolsistas: os de apoio técnico e científico, selecionados pela universidade, e os ligados ao programa Capacita Portos, de extensão universitária, cooperação comunitária e ecossistema social, indicados pela PortosRio para cursos online sobre temas portuários.

Influência política

A reportagem afirma que a PortosRio se tornou área de influência do ex-prefeito de Belford Roxo, Wagner Carneiro, o Waguinho, do Republicanos.

Segundo o UOL, Waguinho emplacou ao menos 37 ex-funcionários da Prefeitura de Belford Roxo ou aliados em cargos na estatal.

O ex-prefeito chegou a trabalhar na PortosRio como assessor de Relações Institucionais entre setembro do ano passado e março de 2026. Ele deixou o cargo para se dedicar à campanha ao Senado.

O Palácio do Planalto negou que o presidente Lula tenha escolhido Waguinho para influenciar politicamente a estatal. Em nota, afirmou que as nomeações e a gestão das empresas estatais seguem a legislação vigente e os mecanismos de governança.

Waguinho e a deputada federal Daniela Carneiro, mulher dele, disseram não ter participado da seleção de bolsistas ou de qualquer procedimento administrativo relacionado ao convênio.

Famílias de aliados receberam bolsas

A reportagem também cita casos de familiares de aliados políticos que receberam valores como bolsistas.

Segundo o levantamento, a mulher, a filha e um sobrinho de Leandro do Waguinho, ex-secretário de Belford Roxo e pré-candidato a deputado estadual, receberam juntos R$ 41 mil.

Outro caso citado é o de familiares de Patrick Senhorinho, assessor de Relações Institucionais da PortosRio. De acordo com a reportagem, pai, mãe e três irmãos dele também se tornaram bolsistas, em um total de R$ 150 mil destinado à família.

Também são mencionados ex-prefeitos, ex-vereadores, pré-candidatos e pessoas ligadas a campanhas em diferentes cidades do Rio de Janeiro.

Pagamentos chegaram a 48 cidades

O levantamento aponta que os pagamentos a bolsistas com ligação política chegaram a aliados em pelo menos 48 dos 92 municípios do estado do Rio de Janeiro.

Entre as cidades citadas estão Belford Roxo, Paracambi, Itaocara, Itaperuna, Angra dos Reis, Mesquita, São Pedro da Aldeia e Maricá.

Auditoria questionou convênio

O Conselho de Administração da PortosRio suspendeu o convênio em abril, após parecer da auditoria interna da companhia.

O documento apontou que não havia estudos prévios demonstrando que o convênio seria a alternativa mais vantajosa em comparação à contratação convencional de empresas de consultoria.

A auditoria também registrou que, entre a proposta inicial e a assinatura do contrato, passaram-se apenas 75 dias. Outro ponto citado foi o uso de recursos próprios de caixa da estatal para bancar o acordo, medida classificada no documento como “queima de caixa”.

O pagamento da segunda parcela foi liberado em junho, após manifestações internas da área jurídica e da auditoria.

O que dizem os citados

A PortosRio informou que não firmou contratos individuais com os bolsistas, mas sim um convênio com a UFRJ. A estatal afirmou que não mantém cadastro para identificar filiação ou atuação político-partidária dos beneficiários e disse não validar a metodologia nem as conclusões do levantamento.

A UFRJ declarou que parte dos bolsistas foi selecionada pela universidade e outra parte foi indicada pela PortosRio para atividades de extensão e cursos online.

O Palácio do Planalto negou interferência política do presidente Lula na estatal.

Waguinho e Daniela Carneiro também negaram participação na escolha dos bolsistas.

O caso levanta questionamentos sobre o uso de recursos públicos, critérios de seleção, transparência e possível uso político de um contrato milionário firmado por uma estatal federal.

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