Vorcaro se reuniu 5 vezes com Galípolo no BC em 2025, apontam registros obtidos via LAI

BRASÍLIA — O banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do liquidado Banco Master, esteve 17 vezes nas dependências do Banco Central (BC) em Brasília e em São Paulo ao longo de 2025. Os encontros ocorreram em momentos decisivos para o banco, em meio à tentativa de recuperação de liquidez, às negociações de venda ao Banco de Brasília (BRB) e, posteriormente, às tratativas que culminaram na liquidação da instituição.

Registros obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) mostram que Vorcaro circulou por pelo menos quatro áreas estratégicas do BC, incluindo o gabinete da Presidência, diretorias técnicas e comitês internos. O levantamento considera apenas visitas presenciais e não inclui reuniões por videoconferência.

Somadas, as entradas e saídas registradas indicam que Vorcaro permaneceu mais de 34 horas dentro do Banco Central no ano em que o Master teve suas atividades encerradas.

Procurados, a defesa do banqueiro e o Banco Central não se manifestaram.

CINCO ENCONTROS COM GALÍPOLO

Entre as 17 visitas, cinco ocorreram no gabinete do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Em pelo menos dois episódios, Vorcaro permaneceu no BC por um período superior ao que constava na agenda oficial.

No dia 1º de abril, a agenda previa um encontro de uma hora, mas o banqueiro ficou 2 horas e 42 minutos. Já no dia 11 de abril, também com previsão de uma hora, ele permaneceu por 3 horas e 8 minutos.

Na mesma data, o BRB concluiu a due diligence (auditoria interna) sobre o Master e retirou do perímetro da negociação cerca de R$ 19 bilhões em ativos que integravam a proposta inicial.

DISPENSA DO COMPULSÓRIO NO MESMO DIA DE REUNIÃO

No dia 8 de maio, Vorcaro voltou a se reunir com Galípolo. O encontro durou 1 hora e 19 minutos. No mesmo dia, o Banco Central decidiu dispensar temporariamente o recolhimento compulsório do Master — valor que os bancos são obrigados a manter depositado na autoridade monetária.

Nesse período, o Master já vinha recebendo recursos de uma linha do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para honrar dívidas, e o BC já demonstrava preocupação de que o nível de exposição do BRB ao Master pudesse desencadear um efeito de contágio.

A VISITA DE 8 HORAS

Um dos registros mais chamativos ocorreu no dia 22 de julho, quando Vorcaro permaneceu 8 horas e 23 minutos no Banco Central. Ele entrou às 9h54 e saiu às 18h18. A autorização de acesso e a saída foram registradas pela Diretoria de Fiscalização e pelo Departamento de Supervisão Bancária.

Dois dias após essa visita prolongada, o Banco Central autorizou a venda do Banco Voiter ao banqueiro Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. O Voiter integrava o conglomerado prudencial do Master e teve a venda autorizada em um contexto em que Lima assumiu passivos da instituição, reduzindo o custo potencial para o FGC.

Lima foi preso posteriormente na Operação Compliance Zero.

DISPUTA DE VERSÕES ENTRE DEFESA E BC

Vorcaro sustenta, em depoimento à Polícia Federal, que o Master foi fiscalizado pelo Banco Central, mas que, em nenhum momento, teria sido alertado sobre risco iminente de liquidação — tese central de sua defesa.

Já o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino Santos, afirmou às autoridades que sua área identificou indícios de fraude e encaminhou rapidamente documentos ao Ministério Público e à Polícia Federal.

VISITAS EM MEIO À VENDA DE CARTEIRAS AO BRB

O levantamento também aponta visitas em momentos em que, segundo investigações, o Master vendia carteiras ao BRB com documentação considerada insuficiente ou adulterada.

Em janeiro, foram firmados seis contratos somando R$ 1,66 bilhão. Em fevereiro, outros seis, totalizando R$ 1,82 bilhão. No dia 17 de março, o Master foi notificado oficialmente pelo BC sobre problemas na documentação das carteiras negociadas com o BRB.

ENCONTROS APÓS NEGATIVA DO BRB E PRISÃO

Após a negativa da operação com o BRB, Vorcaro voltou ao BC nos dias 4 e 9 de setembro. Em 17 de novembro, houve um último encontro, desta vez virtual, com o diretor Ailton de Aquino.

No mesmo dia, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal enquanto tentava deixar o País, poucas horas após o anúncio de que a Fictor e um grupo de investidores árabes demonstrariam interesse em comprar o banco.

A defesa do banqueiro argumenta que ele não pretendia fugir, alegando que o Banco Central teria sido informado sobre a viagem a Dubai, que seria destinada à assinatura de contrato e anúncio de uma operação com investidores estrangeiros.

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