INVESTIGAÇÃO REVELA COMO NEGÓCIOS DE MARCOLINHA LEVARAM POLÍCIA ATÉ DEOLANE EM ESQUEMA LIGADO AO PCC

Apontada pela investigação como integrante do núcleo financeiro, influenciadora teria recebido recursos de empresa suspeita de lavar dinheiro para familiares de Marcola e Marcolinha.

A influenciadora digital e advogada Deolane Bezerra passou a figurar como um dos principais alvos de uma investigação da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo que apura um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado à cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC).

Segundo os investigadores, o caminho até o nome de Deolane começou com a apuração de atividades suspeitas envolvendo a transportadora Lado a Lado Transportes, empresa que seria utilizada para movimentar recursos atribuídos aos irmãos Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder máximo da facção criminosa, e Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior, conhecido como Marcolinha.

A investigação sustenta que a transportadora funcionaria como peça central de uma estrutura criada para ocultar e dissimular recursos de origem ilícita. Nesse contexto, Deolane aparece como integrante do chamado “núcleo financeiro” da organização, considerado responsável por receber, movimentar e integrar valores ao sistema econômico formal.

De acordo com o relatório policial, a influenciadora teria sido beneficiária de recursos oriundos da transportadora. Os investigadores afirmam que ela desempenharia papel relevante na suposta engrenagem de lavagem de capitais, embora estivesse subordinada a outros núcleos hierárquicos que, segundo a polícia, controlariam diretamente a operação.

A estrutura investigada seria composta por quatro níveis. No topo estariam Marcola e Marcolinha. Logo abaixo, um grupo de intermediários formado por familiares dos irmãos transmitiria ordens para operadores encarregados da gestão financeira e empresarial do esquema. O núcleo financeiro, onde Deolane foi inserida, ficaria responsável pela movimentação dos recursos.

A ORIGEM DA INVESTIGAÇÃO

Bilhetes apreendidos em cela de penitenciária que levaram aos sócios da transportadora Imagem: Polícia Civil de São Paulo e Ministério Público de São Paulo

As investigações tiveram início após a descoberta de manuscritos escondidos em tubulações de esgoto de uma cela na Penitenciária de Presidente Venceslau, no interior paulista.

Os bilhetes, segundo as autoridades, continham referências a operações financeiras, movimentações do tráfico internacional de drogas e até planos de ataques contra agentes públicos.

Durante a análise do material, os investigadores encontraram menções a uma suposta “mulher da transportadora”. A referência levou à identificação de pessoas ligadas à administração da empresa investigada e abriu caminho para uma série de diligências, incluindo quebras de sigilo e apreensões de aparelhos celulares.

Mensagens encontradas nos dispositivos apreendidos teriam revelado uma rede de comunicação entre administradores da transportadora, familiares de Marcolinha e operadores financeiros apontados como responsáveis pela distribuição dos recursos.

FILHOS DE MARCOLINHA TERIAM ATUADO COMO INTERMEDIÁRIOS

Segundo a investigação, Paloma Sanchez Camacho e Leonardo Alexsander Camacho, filhos de Marcolinha, exerciam papel estratégico na transmissão de ordens e na divisão dos lucros obtidos pela estrutura financeira.

Mensagens interceptadas indicariam que Paloma mantinha contato frequente com os administradores da transportadora após visitas ao pai no sistema prisional federal.

Já Leonardo seria apontado como beneficiário direto dos recursos movimentados pelo grupo, apesar de não possuir, segundo os investigadores, fonte de renda formal compatível com os valores identificados em suas movimentações bancárias.

COMO DEOLANE ENTROU NO CASO

O nome da influenciadora surgiu durante o aprofundamento das investigações sobre Everton de Souza, conhecido pelos apelidos de “Player” e “Temer”, apontado como operador financeiro de confiança dos irmãos Camacho.

Segundo o relatório, Everton seria responsável por indicar contas bancárias destinadas ao recebimento e distribuição de recursos provenientes da transportadora.

As autoridades afirmam que documentos financeiros, quebras de sigilo bancário e fiscal e outras provas apontariam uma ligação direta entre Everton e empresas vinculadas a Deolane.

Os investigadores sustentam que a influenciadora teria colocado sua estrutura empresarial à disposição para receber e movimentar recursos considerados suspeitos.

O relatório também menciona movimentações financeiras superiores a R$ 140 milhões envolvendo contas pessoais e empresas associadas à advogada.

Além disso, empresas registradas em seu nome no interior de São Paulo são apontadas como possíveis instrumentos utilizados para a circulação dos valores investigados.

DEFESA CONTESTA ACUSAÇÕES

A defesa de Deolane Bezerra nega qualquer envolvimento da influenciadora com atividades criminosas.

O advogado Aury Lopes Jr. afirma que a cliente se tornou alvo de uma “caça às bruxas” e sustenta que os valores recebidos possuem origem lícita, relacionados à sua atuação profissional como advogada e empresária.

Segundo a defesa, a investigação teve origem em apurações iniciadas ainda em 2019 e, ao longo dos anos, passou a incluir o nome da influenciadora sem que houvesse provas concretas de participação em organização criminosa.

Os advogados também questionam a legalidade da prisão e afirmam que Deolane não representa risco às investigações.

MARCOLA E MARCOLINHA NEGAM ENVOLVIMENTO

Por meio de seus representantes legais, Marcola e Marcolinha também negam qualquer participação no esquema investigado.

A defesa afirma que ambos não possuem ligação direta ou indireta com a transportadora citada pela polícia.

Os advogados destacam ainda que Marcola está preso desde 1999 e cumpre pena em regime de segurança máxima no sistema penitenciário federal, sob rígidas restrições de comunicação.

Apesar das negativas, a Polícia Civil e o Ministério Público sustentam que o conjunto de provas reunidas ao longo da investigação demonstra a existência de uma complexa estrutura voltada à ocultação de patrimônio e movimentação de recursos ligados aos familiares da cúpula do PCC.

O caso segue em investigação e poderá resultar em novas denúncias e desdobramentos judiciais nos próximos meses.

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