CIDADES COM MENOS DE 50 MIL HABITANTES GASTAM MILHÕES NO SÃO JOÃO E DOMINAM RANKING DOS MAIORES CACHÊS DE PERNAMBUCO

Levantamento do MPPE mostra que seis dos dez municípios que mais investiram em shows juninos são cidades pequenas; algumas superam centros urbanos muito maiores.

Enquanto cidades de grande porte concentram a maior arrecadação e estrutura administrativa do estado, são os pequenos municípios pernambucanos que dominam o ranking dos maiores gastos com atrações do São João 2026.

Dados do Painel de Transparência dos Festejos Juninos 2026, divulgado pelo Ministério Público de Pernambuco (MPPE), revelam que seis das dez prefeituras que mais desembolsaram recursos para contratação de artistas possuem menos de 50 mil habitantes, classificação utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para definir municípios de pequeno porte.

A situação chama atenção porque diversas dessas cidades investiram valores milionários em festas juninas, ultrapassando municípios muito maiores em população, arrecadação e orçamento.

CARUARU LIDERA, MAS PEQUENAS CIDADES SURPREENDEM

Caruaru continua liderando com folga o ranking dos investimentos em atrações para o São João. Ao lado da Capital do Forró, apenas Vitória de Santo Antão, Petrolina e Garanhuns possuem mais de 100 mil habitantes entre os dez maiores gastos registrados até o momento.

O restante da lista é dominado por municípios pequenos espalhados pelo Sertão, Agreste e Zona da Mata.

SANTA TEREZINHA: 10 MIL HABITANTES E MAIS DE R$ 1,2 MILHÃO EM SHOWS

Um dos casos que mais chama atenção é o de Santa Terezinha, no Sertão do Pajeú.

Com população estimada em pouco mais de 10,5 mil habitantes, o município aparece na nona posição do ranking estadual, com R$ 1,23 milhão investidos em atrações artísticas.

A programação contará com apenas três dias de apresentações, entre 4 e 6 de julho.

Entre os artistas contratados estão:

• Mastruz com Leite — R$ 250 mil;
• Luan Estilizado — R$ 250 mil;
• Victor Fernandes — R$ 130 mil;
• Henry Freitas — R$ 600 mil.

Somente o cachê de Henry Freitas representa quase metade de todo o investimento realizado pela prefeitura.

CASINHAS INVESTE MAIS DE R$ 1,2 MILHÃO

Outro destaque é Casinhas, no Agreste Setentrional.

Com cerca de 13,5 mil habitantes, o município ocupa a oitava colocação do ranking estadual após investir R$ 1,24 milhão nas festividades juninas.

Apesar do alto valor, a programação não contou com artistas de projeção nacional. O investimento foi distribuído entre 14 apresentações realizadas entre maio e junho.

O maior cachê pago foi para a banda Arreio de Ouro, que recebeu R$ 180 mil.

CAETÉS É O TERCEIRO MAIOR GASTADOR DO ESTADO

Entre os casos mais expressivos está Caetés, no Agreste Meridional.

Com aproximadamente 30 mil habitantes, a cidade aparece na terceira posição entre os maiores gastos do estado, atrás apenas de Caruaru e Vitória de Santo Antão.

O investimento total chega a R$ 1,67 milhão.

O principal nome contratado foi o cantor Léo Magalhães, que receberá R$ 500 mil por sua apresentação no dia 25 de junho.

A programação segue até 4 de julho.

AFOGADOS DA INGAZEIRA APOSTA EM ATRAÇÕES NACIONAIS

Com cerca de 42 mil habitantes, Afogados da Ingazeira ocupa a quinta posição do ranking, com gastos de R$ 1,42 milhão.

A cidade apostou em atrações de diversos estilos musicais.

Entre os destaques estão:

• Taty Girl — R$ 350 mil;
• Fundo de Quintal;
• Detonautas.

A presença de grupos ligados ao samba e ao rock também gerou debates nas redes sociais sobre o foco cultural das festividades juninas.

PETROLÂNDIA E ALIANÇA TAMBÉM APARECEM ENTRE OS MAIORES INVESTIMENTOS

Petrolândia, no Sertão de Itaparica, investiu R$ 1,35 milhão em apenas cinco atrações.

O maior cachê foi destinado à dupla Iguinho e Lulinha, contratada por R$ 450 mil.

Já Aliança, na Zona da Mata Norte, desembolsou R$ 1,26 milhão para realizar sua programação junina.

O principal nome contratado foi Zezo Potiguar, que receberá R$ 490 mil pelo show de encerramento.

TRANSPARÊNCIA E FISCALIZAÇÃO

O Painel de Transparência dos Festejos Juninos foi criado pelo Ministério Público de Pernambuco para acompanhar os gastos públicos relacionados às festas juninas em todo o estado.

A ferramenta reúne informações enviadas pelas próprias prefeituras sobre cachês, contratos, artistas e investimentos realizados para os eventos.

Embora os gastos estejam dentro da legalidade quando devidamente contratados e informados, os números reacendem o debate sobre prioridades administrativas em municípios de pequeno porte, especialmente em regiões que enfrentam desafios nas áreas de saúde, infraestrutura, educação e geração de emprego.

Com seis cidades de menos de 50 mil habitantes entre os maiores investidores do São João pernambucano, a edição de 2026 reforça uma tendência cada vez mais evidente: os festejos juninos se transformaram em uma das principais vitrines políticas e econômicas do interior do estado.

MPPE APONTA R$ 2 MILHÕES EM EXCESSO NOS SHOWS DO SÃO JOÃO DE CARUARU E COBRA CORTE DE GASTOS

Auditoria do Ministério Público identifica cachês acima dos valores de mercado e recomenda que Prefeitura suspenda pagamentos considerados excessivos; Wesley Safadão lidera lista de sobrepreços.

O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) recomendou à Prefeitura de Caruaru e à Fundação de Cultura e Turismo do município que adotem medidas imediatas para conter os gastos com as atrações contratadas para o São João de 2026. Segundo auditoria realizada pelo órgão, os contratos firmados apresentam valores acima dos parâmetros considerados razoáveis, gerando um excesso global superior a R$ 2 milhões.

A análise foi baseada em dados disponibilizados nos painéis de transparência do próprio MPPE e do Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco (TCE-PE). De acordo com o levantamento, diversos cachês pagos pela administração municipal registraram aumentos considerados desproporcionais em relação aos valores praticados pelos artistas em apresentações anteriores.

O principal caso apontado pela auditoria envolve o cantor Wesley Safadão. Contratado para se apresentar no dia 19 de junho, no Pátio de Eventos Luiz Gonzaga, o artista receberá cachê de R$ 1,5 milhão. Segundo os cálculos do Ministério Público, o valor excede em R$ 429.597,34 o teto considerado adequado com base na média histórica de mercado.

Outras atrações também aparecem na lista de contratos considerados acima dos parâmetros técnicos adotados pelo órgão. O cantor Pablo teria recebido um acréscimo de R$ 222.848 em relação ao valor de referência, enquanto o projeto À Vontade apresenta diferença de R$ 155.999,92.

A auditoria aponta ainda que nomes tradicionais do forró, como Zé Vaqueiro, Solange Almeida, Fala Mansa e Limão com Mel, também tiveram cachês contratados acima da média calculada pelo MPPE.

A metodologia utilizada segue os critérios estabelecidos pela Nota Técnica nº 02/2026 do Centro de Apoio Operacional de Defesa do Patrimônio Público e Terceiro Setor (CAO-PPTS). O documento estabelece que os pagamentos não devem ultrapassar a média aritmética dos cachês cobrados pelo mesmo artista entre maio e julho de 2025 em Pernambuco, corrigida pela inflação medida pelo IPCA.

Além disso, o Tribunal de Contas de Pernambuco mantém monitoramento específico sobre gastos com festividades, prevendo alertas quando as despesas superam 3% da Receita Corrente Líquida do município nos últimos 12 meses.

Na recomendação publicada no Diário Oficial, o Ministério Público orienta que a Prefeitura se abstenha de efetuar pagamentos acima dos limites apontados e evite novas contratações sem justificativas técnicas robustas e pesquisas de mercado consistentes.

A gestão municipal recebeu prazo de cinco dias para informar oficialmente as providências adotadas diante da recomendação.

Até a publicação desta reportagem, a Prefeitura de Caruaru não havia se manifestado sobre o conteúdo da auditoria. O espaço permanece aberto para eventual posicionamento da administração municipal.

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