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Santiago Peña é preso horas após impeachment no Paraguai; crise do Ueno derruba governo
Ex-presidente ficou detido em casa por ordem do Ministério Público; ex-chefe do Banco Central também foi alcançado e Pedro Alliana assumiu o país
O ex-presidente do Paraguai Santiago Peña foi preso na noite desta sexta-feira (6), poucas horas depois de ser destituído do cargo pelo Senado em meio à crise provocada pelo colapso do Ueno Bank. A ordem de detenção foi expedida pelo Ministério Público paraguaio dentro de uma investigação por suspeita de lesão de confiança e outros possíveis crimes.
A Polícia Nacional confirmou que Peña foi formalmente detido em sua residência, em Assunção, onde permaneceu sob custódia até ser colocado à disposição do Ministério Público. A ordem também atingiu o ex-presidente do Banco Central do Paraguai Carlos Carvallo Spalding.
Peña é preso depois de perder a Presidência
A detenção ocorreu no mesmo dia em que o Senado aprovou a destituição de Peña por 44 votos, depois de um processo de impeachment relacionado à crise do Ueno Bank.
A Câmara dos Deputados havia autorizado o processo no dia anterior. Peña chegou a apresentar uma renúncia, mas o Congresso deu continuidade ao julgamento político.
O Senado considerou que havia responsabilidade política do então presidente em questões relacionadas ao banco e à gestão de recursos públicos. A destituição não equivale a condenação criminal, já que a investigação penal segue separadamente no Ministério Público.
Ministério Público investiga suspeita de lesão de confiança
A investigação contra Peña tramita sob a Causa nº 92/2026.
Segundo o Ministério Público, a apuração envolve a suspeita de lesão de confiança e outros fatos relacionados à supervisão do Ueno Bank, à colocação de recursos públicos na instituição e à atuação de autoridades e ex-autoridades paraguaias.
A denúncia original contra Peña havia sido apresentada ainda em outubro de 2025 e foi posteriormente ampliada após o agravamento da crise bancária.
Até o momento, a ordem é de detenção para permitir o prosseguimento das diligências. Isso não representa uma condenação criminal definitiva.
Ex-presidente do Banco Central também é detido
A mesma ordem fiscal alcançou Carlos Carvallo Spalding, ex-presidente do Banco Central do Paraguai.
No caso de Peña, a determinação inicial foi para que permanecesse detido em casa até ser apresentado à Unidade Especializada em Delitos Econômicos e Anticorrupção.
Carvallo deveria permanecer em uma dependência indicada pelo comando da Polícia Nacional.
A investigação busca esclarecer se houve falhas deliberadas de fiscalização, favorecimento a empresas ligadas ao grupo controlador do Ueno e irregularidades na administração de recursos públicos.
O que pesa contra Santiago Peña
O processo político que levou ao impeachment reuniu uma série de acusações apresentadas por parlamentares paraguaios.
Entre os pontos citados estão:
- possível conflito de interesses;
- suposta interferência regulatória;
- utilização de recursos do Instituto de Previsão Social no Ueno Bank;
- operações de crédito envolvendo empresas ligadas ao mesmo grupo econômico;
- possível encobrimento institucional;
- suspeitas de benefício patrimonial indevido;
- riscos causados ao sistema financeiro.
Essas acusações integram investigações e o processo político, mas não devem ser tratadas como crimes definitivamente comprovados enquanto não houver decisão judicial.
Peña tinha ligação empresarial com grupo do Ueno
O Ueno Bank ganhou forte espaço no mercado financeiro paraguaio durante os últimos anos.
Santiago Peña havia sido acionista do grupo empresarial ligado ao banco até 2025, relação que passou a ser um dos principais focos dos questionamentos da oposição.
O Banco Central constatou problemas de solvência na instituição e adotou medidas de resolução depois que o índice ficou abaixo dos limites exigidos. A crise atingiu cerca de 2,94 milhões de clientes, segundo dados divulgados pela imprensa paraguaia.
A quebra da instituição também atingiu recursos de entidades públicas e fundos previdenciários.
Pedro Alliana assume Presidência
Enquanto a Polícia Nacional cumpria a ordem contra Peña, o então vice-presidente Pedro Alliana tomou posse como novo presidente do Paraguai.
Ele deverá completar o mandato iniciado em 2023, que termina em agosto de 2028.
O novo vice-presidente é Antonio Barrios, que deixou o Senado para assumir a função.
Novo presidente promete ressarcir poupadores
No primeiro discurso depois de assumir o cargo, Alliana prometeu agir para compensar as pessoas prejudicadas pela crise do Ueno Bank.
Ele afirmou que os poupadores seriam ressarcidos e que os cidadãos de menor renda deveriam receber prioridade.
Alliana também anunciou que pretende enviar ao Congresso um projeto para reduzir gastos considerados supérfluos, além de cobrar resultados diários de ministros e restringir viagens internacionais de integrantes do governo.
A promessa ocorre em um momento de forte pressão social sobre o governo para devolver recursos aos clientes da instituição.
Fundo garante depósitos até determinado limite
O Paraguai possui um Fundo de Garantia de Depósitos para proteger parte dos recursos dos correntistas.
Segundo as regras divulgadas durante a crise, a cobertura pode chegar a 75 salários mínimos paraguaios por pessoa e por instituição financeira, equivalente a aproximadamente 228,3 milhões de guaranis.
O Banco Central já iniciou pagamentos em etapas para grupos de clientes com valores menores depositados.
A recuperação integral de recursos acima do limite garantido dependerá, porém, da liquidação dos ativos do banco e das medidas adicionais adotadas pelo governo.
Crise preocupa milhares de brasileiros
A crise também desperta atenção no Brasil.
Segundo estimativa do Itamaraty citada pela Comissão de Relações Exteriores do Senado, cerca de 270 mil brasileiros vivem no Paraguai. O Senado brasileiro informou que acompanha a situação devido aos possíveis reflexos sobre famílias, trabalhadores, estudantes, empresários e investimentos nacionais no país vizinho.
O Paraguai também possui forte presença de companhias brasileiras, especialmente por meio do regime de maquila.
Além disso, dezenas de milhares de brasileiros estudam Medicina no país e dependem da estabilidade da economia paraguaia para manter despesas com mensalidade, moradia e serviços.
Não há número oficial de brasileiros atingidos pelo Ueno
Não existe, até agora, levantamento oficial público que informe quantos brasileiros eram clientes do Ueno Bank ou tiveram recursos diretamente afetados pela crise.
Estimativas que aplicam a proporção geral de clientes do banco sobre a população brasileira residente no Paraguai podem sugerir dezenas de milhares de possíveis correntistas, mas esse cálculo é apenas uma projeção estatística e não deve ser tratado como número confirmado de brasileiros prejudicados.
Crise muda cenário político do Paraguai
Em poucos dias, a crise do Ueno Bank provocou uma sequência de acontecimentos que alterou completamente o comando político do Paraguai.
O banco entrou em processo de resolução, investigações criminais avançaram, executivos foram presos, o presidente sofreu impeachment, o vice assumiu o governo e o próprio Peña acabou detido.
O Ministério Público agora amplia as investigações para determinar responsabilidades individuais e verificar se houve crimes na condução do banco, na fiscalização regulatória e na utilização de recursos públicos.
Ao novo governo de Pedro Alliana caberá, ao mesmo tempo, tentar estabilizar o sistema financeiro, ressarcir os poupadores e recuperar a confiança política e econômica do país.
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