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Casas Bahia e Marabraz escancaram crise no varejo com dívidas bilionárias

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A piora das condições financeiras voltou a pressionar grandes nomes do varejo brasileiro. Em um curto intervalo, Marabraz e Casas Bahia recorreram a mecanismos de proteção contra credores para tentar reorganizar dívidas, preservar operações e enfrentar um ambiente econômico mais difícil para o consumo. O cenário combina juros elevados, crédito mais restrito, queda no fôlego das vendas e problemas de capital de giro.

A Marabraz protocolou pedido de recuperação judicial no Tribunal de Justiça de São Paulo com dívidas de R$ 140,2 milhões. No dia seguinte, a Casas Bahia apresentou pedido semelhante em escala muito maior, com passivo informado de R$ 17,3 bilhões. Embora os dois casos tenham características diferentes, ambos expõem a pressão financeira enfrentada pelo setor.

No caso da Marabraz, a crise foi relacionada à perda de acesso a crédito e a mudanças em uma estrutura familiar e patrimonial que historicamente ajudava a sustentar operações financeiras. Já a Casas Bahia chegou à recuperação judicial após sucessivos prejuízos, redução de estoques, dificuldades de financiamento e forte deterioração no balanço.

Segundo Matheus Matos, sócio da MA7 Capital, o problema central não está apenas na queda das vendas, mas no custo do dinheiro. Ele afirma que o setor sofre porque os juros elevados encarecem a dívida das empresas e, ao mesmo tempo, reduzem a capacidade dos consumidores de comprar parcelado.

Crédito caro pressiona empresas e consumidores

A Marabraz sustenta que sua dificuldade é principalmente financeira e de liquidez. Na avaliação apresentada à Justiça, o negócio continua operacional, mas passou a enfrentar dificuldades para obter recursos destinados ao financiamento do dia a dia, especialmente para capital de giro.

Durante décadas, segundo a empresa, imóveis comerciais, centros de distribuição e outros ativos ligados à holding patrimonial da família eram usados como garantias ou reforços em operações financeiras. A companhia afirma que conflitos familiares e societários alteraram essa estrutura, levando bancos a exigir novas garantias, reduzir limites, aumentar custos ou deixar de renovar linhas de financiamento.

O pedido de recuperação judicial da Marabraz envolve cinco empresas: Comercial de Móveis Jordanésia, S.V.C. Jaraguá Comercial, Comercial Móveis das Nações, Comercial Zena Móveis e Monta Móveis Prestadora de Serviços. A defesa argumenta que as empresas possuem controle comum e, em grande parte, os mesmos sócios.

A companhia também pediu medidas urgentes para evitar bloqueios de recursos e cobranças durante o período de proteção da recuperação judicial. Entre os pedidos estão a continuidade de serviços essenciais, como energia, água, telefonia e sistemas de pagamento, além da preservação de contratos relacionados aos imóveis usados pelas empresas.

Casas Bahia enfrenta rombo bilionário

A situação da Casas Bahia é mais abrangente. A companhia entrou com pedido de recuperação judicial na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, declarando passivos de R$ 17,3 bilhões e 19,4 mil credores quirografários, que são aqueles sem garantias específicas.

A medida já era considerada provável após a empresa alertar para uma incerteza relevante sobre sua continuidade operacional. O relatório financeiro também mencionava a possibilidade de recuperação judicial ou de uma nova negociação extrajudicial com credores.

A Casas Bahia vinha acumulando resultados negativos. Desde 2024, os balanços trimestrais permaneceram no vermelho, em um histórico que inclui 20 trimestres de prejuízo entre os 30 períodos posteriores à saída do controle do GPA, em 2019.

No segundo trimestre, a empresa registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões, contra perda de R$ 555 milhões no mesmo período do ano anterior. Grande parte do impacto veio de ajustes contábeis, incluindo baixas de ativos e créditos tributários, custos de reestruturação, contingências e efeitos ligados ao fechamento de 298 lojas.

Os números operacionais também mostraram pressão. A receita das lojas caiu 3,2% entre abril e junho, enquanto os estoques recuaram mais de R$ 1,1 bilhão em três meses. Segundo o texto, a redução da disponibilidade de produtos afetou a capacidade de venda da rede em um momento de maior restrição de financiamento.

A crise aparece ainda no patrimônio da empresa. No primeiro semestre, a Casas Bahia acumulou prejuízo de R$ 11,18 bilhões, e o patrimônio líquido, que era positivo em R$ 1,5 bilhão um ano antes, passou a negativo em R$ 8,27 bilhões. A auditoria da EY não emitiu opinião sobre as demonstrações financeiras do trimestre, apontando limitações para concluir sobre a premissa de continuidade operacional.

O caso mostra como a restrição de crédito pode atingir uma varejista mesmo após esforços de redução do endividamento. A empresa havia passado por uma recuperação extrajudicial dois anos antes e chegou a 2026 com uma estrutura de dívida mais alongada, mas voltou a enfrentar problemas concentrados no capital de giro.

A indústria e seguradoras que participam do financiamento das vendas a grandes varejistas teriam reduzido a exposição à companhia diante da percepção de risco. Com menos crédito para adquirir produtos, a rede reduziu estoques, perdeu disponibilidade de mercadorias e registrou queda nas vendas.

O Grupo Pão de Açúcar, o GPA, também enfrenta situação financeira delicada, mas adotou outro caminho. Em vez de recuperação judicial, o grupo recorreu a uma recuperação extrajudicial para renegociar aproximadamente R$ 4,57 bilhões em dívidas.

A crise do varejo, portanto, vai além de casos isolados. Juros altos, crédito mais seletivo, consumidores endividados, estoques menores e dificuldades para financiar a operação formam uma combinação que aumenta a pressão sobre grandes redes e revela um setor em busca de fôlego para atravessar um período de forte instabilidade.

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