Economia
Trump pediu ao Brasil garantia a “dissidentes políticos” na eleição de 2026
Governo brasileiro rejeitou exigência apresentada pelos Estados Unidos durante negociação sobre o tarifaço em 2025
O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pediu que o Brasil garantisse a participação de pessoas classificadas como “dissidentes políticos” nas eleições presidenciais de 2026. A exigência constava de um documento apresentado durante as negociações entre os dois países sobre o tarifaço imposto a produtos brasileiros em 2025.
Segundo as informações divulgadas nesta quinta-feira (17), a proposta defendia que o Brasil realizasse eleições “livres e justas” e não detivesse, prendesse ou limitasse arbitrariamente a participação desses chamados dissidentes no processo eleitoral. No entanto, o documento não especificava quem se enquadraria nessa classificação.
Integrantes do Itamaraty afirmaram que o governo brasileiro rejeitou a proposta. Além disso, fontes da diplomacia disseram que o conteúdo não entrou na pauta formal das negociações posteriores entre Brasília e Washington.
Brasil rejeitou exigência apresentada pelos EUA

Donald Trump e Lula durante reunião bilateral entre Brasil e Estados Unidos, em meio às negociações comerciais e diplomáticas entre os dois governos. | Foto: Reprodução
Os Estados Unidos apresentaram o documento em outubro de 2025, durante as discussões comerciais provocadas pela tarifa adicional aplicada a produtos brasileiros. Nesse contexto, representantes americanos incluíram a questão eleitoral entre uma série de demandas encaminhadas aos negociadores do Brasil.
De acordo com as apurações divulgadas, o documento reunia 21 pontos. Além da referência aos “dissidentes políticos”, os americanos apresentaram propostas envolvendo outros temas das relações econômicas entre os dois países.
O governo brasileiro, porém, considerou parte das condições incompatível com a legislação ou fora da capacidade de decisão do Executivo federal. Por isso, integrantes da diplomacia afirmaram que a proposta não avançou e não passou a integrar efetivamente a negociação comercial.
Há, entretanto, diferenças entre as versões divulgadas sobre o alcance do documento dentro do Itamaraty. Algumas fontes afirmam que a proposta circulou apenas no nível técnico e não chegou às principais autoridades dos dois países. Já outra apuração informa que auxiliares transmitiram o conteúdo ao chanceler Mauro Vieira, que comunicou a proposta ao Palácio do Planalto.
Apesar dessa divergência, as diferentes apurações convergem em um ponto: o Brasil não aceitou a exigência e ela não avançou nas negociações formais entre os dois governos. Dessa forma, o tema ficou fora das rodadas posteriores de diálogo sobre as tarifas.
Documento não citava Bolsonaro nominalmente
O documento divulgado não mencionava nominalmente o ex-presidente Jair Bolsonaro. No entanto, a exigência surgiu em um período no qual Donald Trump fazia críticas públicas ao tratamento dado ao ex-presidente brasileiro e aos processos contra ele.
No ano passado, Trump afirmou que Bolsonaro sofria uma “caça às bruxas” no Brasil. Além disso, o presidente americano criticou publicamente o julgamento do ex-presidente e relacionou essas críticas às tensões entre Washington e Brasília.
Nesse contexto, integrantes do Itamaraty ouvidos por alguns veículos interpretaram a expressão “dissidentes políticos” como uma referência a Bolsonaro e a pessoas envolvidas nos processos relacionados aos atos de 8 de janeiro. Ainda assim, essa associação parte da interpretação dessas fontes, já que a minuta americana não identificava nominalmente os possíveis beneficiários.
Ao mesmo tempo, fontes diplomáticas brasileiras contestaram a própria expressão utilizada pelos Estados Unidos. Segundo esses interlocutores, o Brasil não reconhece a existência de “dissidentes políticos” nos termos sugeridos pelo documento americano.
Assim, o pedido relacionado às eleições de 2026 acabou sem efeito prático nas negociações. O episódio, porém, revela que questões políticas e institucionais também apareceram nas conversas comerciais entre Brasil e Estados Unidos durante a crise provocada pelas tarifas.
Com informações do g1
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